Busca

»»

Cadastro



»» enviar

O divã

Alanis Morissette ao vivo no Chevrolet Hall - BH, 05/02/09

por Daniel Silva

receite essa matéria para um amigo

Este não é um texto jornalístico.

“Visiting hours are 9 to 5”

Chegamos lá pouco depois das 19h45 e a fila já dobrava o quarteirão, quase contornando o shopping. Não ficamos surpresos. Notícias se espalhavam pela cidade de que já havia pessoas no Chevrolet Hall desde manhã, apesar do show estar marcado para as 21h – o que, em brasileiro, significa que só começaria depois das 21h30.

Mas a fila não era puro fanatismo. Havia de tudo: patricinhas, playboys, hippies...E o resultado foi um Chevrolet absolutamente lotado, como eu nunca vi – pista e arquibancada. E óbvio que nesse mar de gente, eu encontraria alguém da minha cidade-natal. Meus conterrâneos são como formigas, estão em todo lugar. Na verdade, fui com uma grande amiga de lá e o namorado dela. E no caminho, já discutíamos as últimas labaredas que estalaram as madeiras do inferno que nos (in)formou.

“Soon I’ll grow up and I won’t even flinch at your name”

Esse prelúdio (e, sim, os fantasmas da adolescência que encontrei no show) não deixavam nem um pouco difícil saber porque eu estava ali. A cada rosto esbarrado, cada menção jocosa, cada lembrança reavivada, ficava claro que ele não havia morrido. Que estava ali dentro, bem vivo, tremendo, ainda inseguro, escondido dentro do carro do pai. Portas travadas, vidros fechados, um lote vago à direita, uma vida vegetativa à esquerda, a vontade de chorar. Descobrindo que se pode ficar triste e ter raiva e gritar com Jagged Little Pill no talo no som. Um menino de 15 anos. Sozinho.

Foi para ele que as pessoas olharam sem entender muito bem quando a primeira parte de “The couch” foi iniciada, com Alanis Morissette ainda fora do palco. O tal menino sabia a letra toda da música - enorme, pouco conhecida, cheia de palavras, quase uma crônica. Foi para ele que as pessoas olharam estranho. Não para mim.

“Who are you younger generation to tell me that I have unresolved problems…”

Foi ele que reconheceu na música todas as verdades não-ditas e confrontações nunca levadas a cabo com uma família à qual nunca soube corresponder muito bem - nessa primeira e nas outras duas partes que completariam a canção durante o show. Assim como foi ele que sentiu “Uninvited”, a melhor música de Alanis, pulsar por todo o ginásio com a mesma força da primeira apresentação que ele viu dela, em 1999. E notou a ausência desse mesmo pulsar em “You learn” e “Not the doctor”, sem uma banda tão boa quanto as duas das turnês de JLP e Supposed Former Infatuation Junkie para carregar as finalizações prolongadas dos dois petardos.

Viu a bela imagem de Alanis rodando suas longas madeixas por todo o palco feito louca, do mesmo jeito que ela faz desde 1996 - só que agora durante “Moratorium”, do último álbum. E sentiu a falta de “Perfect”, substituída com uma bela performance de “Flinch”, talvez a mais bonita do show. Foi ele, por fim, que se arrepiou e conteve os olhos cheios de lágrimas durante “Sympathetic character”, com flashes do som no talo no CD player do carro para ignorar as brigas do pai bêbado com a mãe.

Foi ele, não eu.

Isn’t it ironic?

Esse menino pequeno, magrelo, que não tinha muitos amigos (a citada no início desse texto é uma das únicas que ele manteve) brigou para enxergar Alanis soltar o vozeirão em “Not as we” e para pular durante “All I really want”. Sim, brigou. Porque as pessoas não vão mais a shows para ver ou curtir. Mas sim para registrar com suas abomináveis câmeras, celulares e afins cada momento. Mas você não pode guardar lembranças de algo que você não VIVEU.

E esse texto, sem fotos nem vídeos, é um protesto nada silencioso contra essa prática estúpida. E pela volta dos shows em que as pessoas dançam e pulam e se esbarram, em vez de fitarem imóveis suas maquininhas demoníacas.* (Esse não foi o menino de 15 anos, foi eu velho mesmo.)

Cansado dessa briga, cercado por luzinhas de telas de LCD e pasmo com a frieza das pessoas - que cantam “You oughta know”, mas não reagem emocionalmente à música – ele reconheceu que esse foi o show mais frio dos três a que assistiu da cantora canadense.

I’m too exhausting to be loved.

O menino esteve lá. Ele está lá. O tempo todo. Só que agora ele tem uma casca protetora por fora. De trabalhador, pensador, batedor de ponto e formiguinha de spots culturais em cidades que lembram que o mundo é maior do que seu inferno natal.

E a casca tem amigos.

Amigos hips que se vestem descoladamente e escutam bandas descoladas e falam em frases descoladas e desprezam aqueles que não são descolados e criticam as pessoas pelo peso ou estilo ou aparência. Os mesmos motivos pelos quais o menino de 15 anos não tinha amigos.

Ah. E eles chamam a Alanis de lontra.

Toda vez que se dá conta disso, a casca escuta as fitas que Morissette cita no melancólico melô da depressão “Tapes”. E ela sabe que a tristeza do menino continua a mesma daquelas tardes trancado no carro com o som no talo. Sozinho.

Chris McCandless reconheceu que a felicidade só existe compartilhada. Da mesma forma, a tristeza é essencialmente solitária. É por isso que o menino – e sua casca – chegaram lá pouco depois das 19h45. E se afastaram do casal de amigos durante o show.

And what it all comes down to is that
I haven’t got it all figured out just yet.
And that everything is gonna be fine. Fine. Fine.


Veja aqui algumas boas imagens do show.

» leia/escreva comentários (8)