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1999, o primeiro ano do resto de nossas vidas

por Daniel Oliveira

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Em 1999, eu tinha 15 anos. Era o auge da minha adolescência (não que eu goste de lembrar a respeito). Mas aquele ano teve outro auge, bem mais relevante. Abrangente. Marcante.

1999 foi um marco para o cinema: quando a indústria conseguiu aliar conceitos bem complexos, que muitas vezes questionavam (e criticavam) ela mesma, a produtos altamente populares. A safra de bons (e influentes) filmes lançados naquele ano provavelmente não foi igualada até hoje. E pelo menos três deles ganharam o direito de serem lembrados com o clichê “marcaram uma época”.

Todo mundo conversava como naqueles longas, vestia-se como eles, falava deles. Até os outros filmes. E talvez o mais emblemático dos três seja “Matrix” – não por acaso, o primeiro capítulo de nossa série, que trata desse que foi o primeiro ano da vida de quem gosta de cultura pop contemporânea. 1999 começou uma época que, de certa forma, ainda não acabou. Pelo menos, no cinema – “Matrix” e os próximos dois longas continuam influenciando diretamente o que é filmado hoje. Porque, com 15 anos, eu achava o tal “Ninguém pode te dizer o que a Matrix é...” o máximo.

E hoje, com 25, eu ainda acho do caralho.

P.S.: Ainda não vamos revelar quais são os outros dois filmes. Quem adivinhar nos comentários ganha...não ganha nada porque existe uma crise e ninguém tem dinheiro sobrando. Ganha admiração, respeito, quando as pessoas virem que você acertou e disserem “oh, como ele é esperto” e tal.
P.P.S.: Fique de olho que uma versão musical deste overdose também deve aparecer em breve.

Matrix

(EUA/Austrália, 1999, dir. Andy e Larry Wachowski, Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving)

por Renné França

Fotos: Divulgação

Há dez anos, os adolescentes Eric Harris e Dylan Klebold entraram armados na escola de Columbine, no Colorado (EUA). Vestidos com sobretudos pretos, os dois mataram treze pessoas e em seguida se suicidaram. As mais variadas fontes do entretenimento foram apontadas como possíveis responsáveis pelo massacre, da música de Marilyn Manson ao game “Doom”. Sobre a vestimenta que os dois estariam usando, falou-se muito que teria sido inspirada por um filme que ainda não havia estreado no Brasil, mas já fazia um tremendo sucesso por lá.

Foi a primeira vez que muitas pessoas ouviram falar de “Matrix”. E continuam ouvindo e falando do filme, mesmo uma década após sua estreia. Mas não por causa da tragédia em Columbine: a obra virou referência cultural mesmo.

E pensar que tudo começou com uma mulher sendo surpreendida por quatro policiais quando usava um computador.

Quando Trinity se levantou com as duas mãos na cabeça e de repente saltou, sabíamos que havia algo de muito diferente ali. Ela não pulou simplesmente. Ela parou no ar. E a câmera, como se funcionasse à velocidade da luz, girou suavemente à sua volta. Naquele momento, todo mundo soube que não estava vendo só mais ‘outro’ filme de ação.

Quantos “uaus” foram ouvidos nas salas de cinema ao redor do planeta naquele hoje longínquo 1999? O desconhecido, porém pretensioso, “Matrix” pegou plateias de surpresa e sua influência pode ser sentida até hoje. Do “bullet time” em filmes como “As Panteras” até as roupas de couro de “Anjos da Noite” (e do vindouro “GI Joe”), o milk shake cyberpunk dos irmãos Wachowski entrou para a cultura pop e recebe nossas reverências na comemoração de seus 10 anos de idade.


Mulheres de preto.

Costuma-se dizer que as grandes obras refletem a época em que foram produzidas. “Matrix” tem corpo, forma e mente da virada do século XX para o XXI. Sem aprofundar muito em sonolentas discussões sociológicas, é fácil perceber as influências da chamada pós-modernidade, da ilusão da humanidade em viver num presente perpétuo, desprovido de historicidade e passado, passando pela substituição da vida pelos seus simulacros (a imagem sendo consumida como realidade) até as diversas influências fragmentadas que compõem a história. “Matrix” é o mosaico das ideias e preocupações presentes numa era de interatividade face a face substituída por interações virtuais e máquinas funcionando como extensões do ser humano.

Mas os Wachowski deixam a sutileza de lado e apostam em uma metáfora mais do que clara. Se McLuhan falava da tecnologia como extensão do homem (e poderíamos pensar, por exemplo, no celular como algo que hoje parece naturalmente ligado ao nosso corpo), os diretores/roteiristas colocam os humanos como verdadeiras baterias a serviço da máquina. Suas interações mediadas não passam por MSN ou emails, mas por uma espécie de hiper-“Second life”, onde consciência e realidade virtual misturam-se de maneira inseparável.


Acupuntura pós-moderna.

E as referências?

A história bíblica do escolhido destinado a salvar a humanidade ganha contornos de quadrinhos com heróis que quase voam e substituem as tradicionais máscaras por óculos escuros. E dá-lhe Lewis Carroll, Jean Baudrillard, Hegel e Platão misturados de maneira épica e surpreendentemente divertida.


Siga o coelho branco.

Efeitos especiais revolucionários (e usados com a parcimônia necessária para não cansarem – vide as sequências) tiravam o fôlego quando vistos pela primeira vez. E conviviam pacificamente com conceitos complexos e diálogos retóricos recheados de frases de efeito.

Como sua própria época, “Matrix” não preza pela originalidade pura, mas pela capacidade autoral de atualizar e transformar ideias já existentes. A história é quase a mesma do “Neuromancer” de Willian Gibson, da noção de existir uma matrix até os hackers como personagens principais. Já a estética e o estilo são descaradamente chupados da animação “Ghost in the Shell”, de Mamoru Oshii.

Toda essa mistura resulta em sua narrativa com cara de (vídeo)arte contemporânea, fragmentada, amálgama, por vezes confusa e assumidamente apocalíptica. “Matrix” não inventou a roda, mas mostrou como construir novos tipos de sintaxe dentro de uma indústria frequentemente acusada de falta de originalidade. De quebra tornou-se um emblema dos anseios de indivíduos cada vez mais dependentes social, cultural e economicamente das tecnologias virtuais.

Melhor do que ler sobre, é rever o filme. Pois como já disse uma vez um sábio de óculos de escuros:

“Infelizmente ninguém pode descrever o que é Matrix. É preciso ver com seus próprios olhos”.

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