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Como ser legal

Overdose Nível Cusack

por Daniel Oliveira

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Pode não ter ficado claro para alguns o que eu quis dizer na resenha de “2012”, quando escrevi que o diretor Roland Emmerich usou uma espécie de “Nível Cusack” como ferramenta de seleção natural em seu mais novo brinquedinho apocalíptico. O que seria, afinal, esse “Nível”? O que ele representa? Como ser (mais ou menos) Cusack nessa vida?

São questões mais que naturais que podem passar pela sua cabeça, nobre leitor. Ser Cusack não é algo simples. É mais que ser meramente legal. Não é ser cool. É um estilo de vida. E um que envolve uma série de decisões pessoais e profissionais que, caso não tenham ficado claras com as seis perguntas listadas na resenha, serão esclarecidas agora.

Senhoras e senhores, a gradação do Nível Cusack, de zero a Cusack, conforme representada por dez dos principais filmes / personagens do ator. Tomem nota.

Con Air – a rota de fuga

(EUA, 1997, dir. Simon West)

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Fotos: Divulgação


O personagem: Vince Larkin, o policial bacana e competente responsável por transportar o condenado-protagonista durante uma viagem de avião.

Nível Cusack: 0. Zero. Nada. “Con Air” é um filme de ação, passado quase todo dentro de uma aeronave e que se leva extremamente a sério. Pouco importa se é John Cusack ou Tom Cruise em cena. O personagem é um policial (blé), sem nenhuma ligação com cultura pop ou arte, não tem uma garota por quem sofrer e a competência do personagem não lhe dá espaço para parecer perdido-porém-simpático nem nada similarmente charmoso. Vexame.

Os queridinhos da América

(America’s sweethearts, EUA, 2001, dir. Joe Roth)

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Fotos: Divulgação


O personagem: Eddie Thomas, o ator coitadinho, carente e egocêntrico, em busca de amor e de um sentido na vida após ser trocado pela mulher.

Nível Cusack: 1. Baixíssimo. O personagem é essencialmente idiota, famoso, bem sucedido e egocêntrico. E suas falas são péssimas. Isso é equivalente a Traço no NC. A tábua de salvação é que o personagem é abandonado e sofre por amor, o que possibilita ao ator explorar suas expressões coolsackeanas de cão sem dono. Mas depois ele fica com a Julia Roberts.

Identidade

(Identity, EUA, 2003, dir. James Mangold)

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Fotos: Divulgação


O personagem: Ed, misterioso ex-policial e motorista da atriz Caroline Suzanne (Rebecca de Mornay).

Nível Cusack: 2. Outro exemplo em que a coolzice de John Cusack é pouquíssimo explorada porque a trama é mais importante e ele é meio policial (blé [2]). É fato que Ed lê livros, cita autores e músicas, além de ter uma profissão mediana sem ser amargo nem frustrado por isso. Ainda assim, não é Cusack o bastante.

1408

(EUA, 2007, dir. Mikael Hafström)

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Fotos: Divulgação


O personagem: Mike Enslin, o escritor cético especialista em desmascarar eventos supostamente paranormais em hotéis, pousadas e similares.

Nível Cusack: 3. O personagem é um escritor, o que é um ótimo início. E meio que sofre por amor. E o filme tem a ótima intenção de explorar a sagacidade inerente ao ator. Mas exagera na mão e acaba tornando-o muito cínico e pouco humilde, qualidade essencial na escala Cusack. O personagem vira apenas mais um neurótico esquizofrênico vítima das bizarrices dos longas de terror. Mas o filme até que é legalzinho.

Nossa vida sem Grace

(Grace is gone, EUA, 2007, dir. James C. Strouse)

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Fotos: Divulgação


O personagem: Stanley Phillips, militar aposentado que viaja com as duas filhas para contá-las que sua mãe morreu no Iraque.

Nível Cusack: 4. Incrível: Stanley é um ex-militar (!), conservador (!!), republicano (!!!), que apoia a Guerra do Iraque (!!!!). E ainda assim o ator consegue incutir no personagem o desengonço e a empatia coolsackeanas que apreciamos tanto. É a expressão de cachorro perdido que ele empresta ao viúvo que salva Stanley de ser alguém meramente ignorável (e um tanto desprezível), deixando o personagem tolerável e fazendo desse poço de depressão um filme razoavelmente assistível. Vale o 4 pelo esforço.

Os imorais

(The grifters, EUA, 1990, dir. Stephen Frears)

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Fotos: Divulgação


O personagem: Roy Dillon, o golpista dividido entre duas mulheres (também golpistas): a mãe (Angelica Houston) e a namorada (Annette Bening)

Nível Cusack: 5. Aqui se deve reconhecer que o NC alcançado é devido, em grande parte, à colaboração de Angelica Houston e sua mãe castradora. É ela que dá a Cusack a chance de parecer perdido, sofrer por amor, ter a sensação de nunca ser reconhecido - e, comparado a ela, Roy é até boa pessoa. Os diálogos são bons e não há lição de moral. O 5 vem do fato de ser um personagem bastante sério para a escala Cusack, além de beirar o “espertinho” pouco humilde e identificável.

Quero ser John Malkovich

(Being John Malkovich, EUA, 1999, dir. Spike Jonze)

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Fotos: Divulgação


O personagem: Craig Schwartz, o manipulador de marionetes que encontra um portal para a mente de John Malkovich.

Nível Cusack: 6. Mais um caso em que o filme é mais importante que a coolzice de John Cusack. O que importa aqui são as loucuras de Spike Jonze e Charlie Kaufman mais que qualquer outra coisa. Ainda assim, Craig é fracassado no amor, meio artista / meio medíocre e os diálogos de Kaufman são sempre ótimos. Mas o personagem é mau e muito pouco simpático / fofo / charmoso para o NC.

Matador em conflito

(Grosse Pointe Blank, EUA, 1997, dir. George Armitage)

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Fotos: Divulgação


O personagem: Martin Blank, assassino profissional em missão na mesma cidade onde acontece a reunião de 10 anos de sua turma de colégio.

Nível Cusack: 7. Mais um exemplo em que John Cusack ultrapassa limites e transforma um personagem altamente questionável em alguém essencialmente Cusack. Martin Blank só não é artista e/ou diretamente relacionado com cultura pop. Ele é tímido e sofre por amor, talentoso em um emprego mediano, é espirituoso sem ser espertinho e, no fundo, é uma boa pessoa. A improbabilidade ainda dá uma turbinada extra no NC. (Além disso, resolver questões amorosas pendentes durante a reunião de 10 anos da turma é algo absolutamente Cusack).

Ensinando a viver

(The martian child, EUA, 2007, dir. Menno Meyjes)

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Fotos: Divulgação


O personagem: David Gordon, o escritor viúvo que adota um garoto autista que acredita ter vindo de Marte.

Nível Cusack: 8. Adotar uma criança autista?!?!?!?!? E ainda é escritor? E viúvo, sofrendo a perda da mulher? E criando laços com o garoto, de forma inocente, infantil e compreensiva, ensinando enquanto aprende?!?!?! Existe algo mais Cusack que isso? Difícil. David Gordon é John Cusack em seu mais compassivo, cool, bondoso sem dar lição de moral, divertido e Sessão da Tarde mode on. Quem não se emocionar com esse filme NÃO TEM CORAÇÃO.

Digam o que quiserem

(Say anything, EUA, 1989, dir. Cameron Crowe)

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Fotos: Divulgação


O personagem: Lloyd Dobler, o semi-loser que conquista a garota legal da turma.

Nível Cusack: 9. O nascimento do “Ser Cusack”. A cena do filme de Cameron Crowe em que o protagonista segura um micro-system na janela de sua musa Diane Court (Ione Skye) definiu para as gerações futuras o que significa ser Cusack nessa vida. Lloyd Dobler é ligado em cultura pop, legal sem ser popular, tímido e divertido sem ser engraçado. É boa pinta, uma ótima pessoa e sofre (muito) por amor. Mais Cusack que ele só o nosso próximo personagem...

Alta fidelidade

(High Fidelity, EUA/Reino Unido, 2000, dir. Stephen Frears)

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Fotos: Divulgação


O personagem: Rob Gordon, dono de uma loja de discos fracassado no amor, tentando entender onde errou nos seus relacionamentos.

Nível Cusack: Cusack. Rob Gordon é, sem sombra de dúvidas, o nível máximo em nossa escala. Inconscientemente, Nick Hornby descreveu com perfeição em seu livro homônimo toda a essência e a alma da persona coolsackeana. Rob Gordon talvez seja mais John Cusack que o próprio. As expressões de cão sem dono. A enciclopédia de cultura pop. A boasujeitice. O emprego meia boca, mas não fracassado. As frases espirituosas, mas não engraçadinhas. E ele ainda é abandonado por Catherine Zeta-Jones!!! É o orgasmo coolsackeano.

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