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1999, o primeiro ano do resto de nossas vidas

Parte 3: O Clube da Luta

por Daniel Oliveira

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A primeira regra do Clube da Luta é: você não comenta sobre o Clube da Luta. E a segunda é: você NÃO comenta sobre o Clube da Luta.

Mas neste terceiro, e derradeiro, capítulo da nossa série 1999, nós vamos quebrar o regulamento. Porque, bastante ironicamente aliás, se houve um título de filme que se tornou uma marca e foi referenciado e usado nas mais diferentes e inusitadas ocasiões nos últimos 10 anos, esse título é “Clube da luta”.

Como você pode se conhecer se nunca esteve numa briga?

Um grupo de amigos com um segredo? Um clube da luta. Uma ideia para um movimento anárquico contra a “sociedade capitalista contemporânea”? Um clube da luta. Uma desculpa para dar porrada e se sentir vivo...? Toda uma geração falava sobre o clube da luta – o fracasso tornado cult, o melhor filme do Brad Pitt, uma obra-prima genial, o final que subverteu para sempre “Where is my mind” do Pixies, o longa em que o cara entrou no cinema e matou um monte de gente.

Esta é sua vida e ela está acabando a cada minuto.

Dizer que “Clube da luta” influenciou o cinema nos últimos 10 anos é arriscado. Respingos da cidade e das cores sujas da fotografia de Jeff Cronenweth e da convergência entre violência física e psicológica podem ser sentidos no “Réquiem para um sonho” de Darren Aronofsky. A confusão entre realidade e sonho – e a sensação de que a realidade é cada vez mais um pesadelo – foram o leitmotif de outro cult dos ’00, “Donnie Darko”. E a crítica ácida e sarcástica ao consumismo, traduzida das páginas da literatura para o cinema através de uma edição rápida e cheia de efeitos gráficos, pode ser encontrada também no “Obrigado por fumar” de Jason Reitman.

Mas dizer que o filme gerou uma “onda” ou uma “tendência” seria forçar a barra. Mais realista é notar que o roteirista Jim Uhls só conseguiu emplacar outro ‘grande’ filme em Hollywood no acéfalo “Jumper”, de 2008. Que Cronenweth foi para a plástica vazia de “Retratos de uma obsessão” e “Abaixo o amor”. Que “Sufoco”, também adaptado da obra de Palahniuk, foi outro fracasso – “Assombro”, mais uma adaptação do autor, está lutando para ser produzido. E que David Fincher desembocou em “O curioso caso de Benjamin Button”.

“Clube da luta” foi o arauto de um apocalipse microcósmico hollywoodiano, em que filmes como ele não são mais bancados por grandes estúdios só porque um ‘astro’ está a frente do projeto. O fim dos nomes e o início das marcas: Homem-Aranha, Harry Potter, Senhor dos anéis. Ao criticar o consumismo, os rótulos e a idiocracia da ausência de vida, “Clube da luta” acabou se tornando, com seu fracasso financeiro, um estranho no ninho. Uma produção quase isolada, única, entre as estrelas dos anos 90 e as marcas dos 00. Uma crítica panóptica para – e que enxergava - o futuro onde não poderia mais ser produzida. Um futuro em que os indivíduos e as ideias sucumbem aos produtos de consumo rápido e fácil. Familiar?

O Clube da Luta

(The Fight Club, EUA, 1999, dir. David Fincher. Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham-Carter, Jared Leto, David Andrews)

por Renné França

Fotos: Divulgação

“Sabe as coisas que Tyler diz sobre ser um merda, um escravo da história? Pois era assim que eu me sentia. Queria destruir tudo de belo que nunca tive...Queria que o mundo todo chegasse ao fundo. Batendo naquele garoto, o que eu queria, na verdade, era meter uma bala no meio da testa de todos os pandas ameaçados que não trepavam para salvar a espécie e cada baleia ou golfinho que desistisse de lutar e encalhasse na praia. Não vejo isso como extinção. Vejo como diminuição da espécie”.Chuck Palahniuk

As pessoas estão sempre me perguntando se eu conheço Tyler Durden.

Apesar de não ter uma arma dentro da boca, continua difícil encontrar palavras para explicar o que aconteceu naquele novembro de 1999. 28 pessoas assistiam à última sessão de cinema no Morumbi Shopping, em São Paulo, quando o estudante de medicina Mateus da Costa Meira, de 24 anos, descarregou um pente de submetralhadora na sala, matando três pessoas. Não importou o assassino contar que não havia assistido nada, o filme em exibição foi logo apontado como um dos responsáveis pela tragédia. E foi assim que muitos brasileiros ficaram conhecendo Tyler Durden e o seu “Clube da Luta”.

O filme de David Fincher foi um fracasso grandioso. Quem esperava ação se decepcionou. Aqueles que procuravam suspense, também. Romance, drama, comédia, nada parece dar conta de enquadrar a obra baseada no livro de Chuck Palahniuk. Foi acusado de fascista, de sensacionalista e até de antiDeus (?). O tempo é que transformou a polêmica em culto e permitiu que o filme fosse revisto e (re)descoberto. Aqueles que na época chamaram o filme de bizarro estavam com razão: “Clube da Luta” é um acontecimento cinematográfico ímpar, recheado de ideias poderosas, imagens grotescas, pregando a anarquia e criticando o consumismo, ao mesmo tempo em que era bancado por um grande estúdio (a Fox) e contava com um dos maiores astros do mundo.


Muito prazer.

O que nos traz de volta a Tyler Durden. Quando ele diz “Fomos criados pela televisão para acreditar que um dia seríamos ricos, estrelas de cinema. Mas não seremos. E estamos aos poucos aprendendo isso”, a frase sair da boca de Brad Pitt faz toda a diferença. Fincher usa o exemplo máximo de beleza e glamour para atacar as mesmas engrenagens que transformaram Pitt no que ele é. Pouco a pouco, o filme vai desconstruindo todas as nossas certezas e aspirações, seja pela destruição do apartamento dos sonhos ou no massacre à beleza-padrão (na impactante cena de luta com Jared Leto).

Tyler Durden produz e vende sabonetes. É assim que ele se apresenta ao narrador da história (Edward Norton) e aos espectadores do filme. Seus sabonetes são feitos de gordura humana e, na proposta de usar restos de pessoas para limpar elas próprias, está apresentada toda a sua corrente de pensamento (e a do filme): usar o sistema contra ele mesmo, fazer da anarquia uma solução contra a ordem, usar a dor como forma de despertar a si próprio.

E é aí que chegamos ao título do filme. O Clube da Luta não se trata de atacar o outro. Pelo contrário. O prazer está em baixar a guarda e se deixar atingir. Apanhar para se sentir vivo e sair do estado entorpecente em que a sociedade nos colocou. “Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamos”, fala Durden (e Brad Pitt): é Hollywood atacando ela mesma e todo o mundo de sonhos que produz.

E por trás disso tudo está o narrador do filme e sua insônia. Podemos perder o sono por vários motivos, mas muitas vezes simplesmente não sabemos por que estamos acordados.

O personagem não sabe por que vive, por que trabalha, por que compra coisas. Sua letargia só termina quando conhece Tyler Durden e começa a lutar para conhecer a si mesmo. Se, ao olharmos para Brad Pitt, vemos o filme como uma grande crítica ao consumismo, é no personagem de Edward Norton que entendemos “Clube da Luta” como um tratado sobre o individualismo da sociedade contemporânea.

Sua solidão, as amizades frias, o relacionamento amoroso que parece não completá-lo: tudo culmina na extraordinária reviravolta que liga individualismo e consumismo de maneira brilhante. Sem entregar muito para quem ainda não viu o filme, nosso olhar para o próprio umbigo, a necessidade de sermos sempre melhores que os outros e o auto-isolamento são confrontados com tudo o que fomos formatados para querer ser. Nossas projeções são produtos de indivíduos sem perspectivas de verdade, que se agarram desesperadamente a modelos já pré-moldados. E ao final do filme, somos confrontados com essa verdade de uma maneira mais do que clara, para nos apercebermos como figuras fraturadas, lutando contra nós mesmos, o tempo inteiro tentando vencer um inimigo que nós mesmos criamos.

David Fincher nunca mais conseguiu fazer nada igual. E provavelmente nunca mais terá liberdade para tentar. Após o sucesso de “Se7en”, o diretor surgiu como grande revelação e, com “Clube da Luta”, provou-se um dos mais corajosos realizadores contemporâneos. O filme foi uma sinalização clara do ex-diretor de videoclipes para a sua própria indústria e um atestado de seu talento como narrador. Da abertura às imagens colocadas entre frames, Fincher demonstra um cuidado com os detalhes que muitas vezes só fazem sentido quando se revê o filme.

“Como foi bom eu ter aparecido / Nessa minha vida já um tanto sofrida / Já não sabia mais o que fazer / Pra eu gostar de mim, me aceitar assim / Eu que queria tanto ter alguém / Agora eu sei sem mim eu não sou ninguém / Longe de mim nada mais faz sentido / Pra toda vida eu quero estar comigo” ... Não é Tyler Durden, é Ultraje a Rigor vários anos antes do filme. Tudo bem, a crítica não é nova, mas a forma como David Fincher a colocou fez de “Clube da Luta” um raro produto que critica a si mesmo. E as edições especiais do DVD estão aí para provar...

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