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Um disco é para o que nasce

Pilulista melhores CDs de 2009

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Afinal, para que servem as listas?

A três dias do fim do ano e da década, milhares de listas depois, você deve pensar que servem no mínimo para atazanar sua vida e no máximo pra nada. Mas, ei, seja compreensivo e lembre-se de quando você gostava delas pelo menos para diminuir seu tédio no trabalho. Porque, pensando bem, a pergunta certa não é essa. No meio da correria diária, do Twitter e da obrigação infernal de arrumar o programa certo para o réveillon, a gente nem tem tempo para pensar:

Afinal, para que serve um disco?

Com essa ideia relativizamos um pouco todo o nosso trabalho meticuloso de reunir colaboradores e amigos, contabilizar os 10 votos, no máximo, de cada um, com o devido peso para cada posição, até chegar na ordem da lista final. Se cada disco serve para alguma coisa, o primeiro pode ter tanto valor quanto o último - e quem pode dizer que é mentira?

Também evitamos discussões intermináveis de "porque tal CD não entrou" ou "porque esse está na frente do outro" e corroboramos com a tese de que os discos foram bem na lista simplesmente porque desempenharam com louvor sua função nesse mundo. Que, claro, não precisa ser a mesma para todas as pessoas - aqui estão as funções no ponto de vista dos editores da lista.

Aliás, é uma brincadeira que mostra como 2009 foi foda de álbuns e música em geral. Pensar na função das coisas, na necessidade, no poder delas (no caso, as coisas são a música pop), é sinal de que você ainda acredita e é apaixonado por elas. Viva 2009!

(Ah, a lista pode servir também como um guia para o nosso manifesto "faça o que quiseres pois é tudo da lei desde que você seja feliz no réveillon 2010". Se você quiser passar a meia-noite pensando em casamento, apagar as luzes e esquecer tudo, acender as luzes e voltar a ser jovem, você pode, e ainda tem boas companhias sonoras.)

10. Phoenix - Wolfgang Amadeus Phoenix

Melhor disco para acordar em um comercial de margarina.


É tudo tão redondo e perfeito em Wolfgang Amadeus Phoenix que você poderia enjoar. Mas não enjoa. Já começa com um dos melhores hits da década, "Lisztomania", típica música para escorregar com meia (no estilo Risky-business) e emendar uma dancinha enquanto prepara o café da manhã. Depois é hey hey hey, e uma sequência de músicas indie rock devidamente construídas com fórmula pop, refrões grudentos, ritmos dançantes na medida certa. Talvez o mérito de Wolfgang Amadeus Phoenix seja ser um disco de verdade, com dez músicas boas e uma unidade claramente perceptível. Além do ótimo timing, que dá até uma passeada na moda dos vampiros (ninguém me tira da cabeça que "Countdown" é sobre um vampiro suicida).

9. Julian Casablancas - Phrazes for the young

Melhor disco para sentir a idade nos músculos, nos ossos (e na mente) e ver que, depois de tanto tempo, sim, ainda somos jovens.


Há (quase) 10 anos…no início dos 00, estávamos saindo da escola, começando a experimentar a vida com nossos próprios sentidos, indo descobrir quem a gente era. E eis que surgiu Is this it? do Strokes e tornou tudo mais fácil: era aquilo que nós éramos. Ou, pelo menos, o que queríamos ser aos 20 e poucos anos. Agora, aos 20 e quase 30, as Phrazes for the young de Julian Casablancas vêm cantar o olhar moldado por esses (quase) 10 anos de hedonismo, inferninhos e álcool preconizados naquele CD. Em breves (e intensas) oito músicas, o vocalista do Strokes canta sobre se “sentir um turista em todo lugar que vai”. Observa aquela rua, que era como um refúgio de sua tribo, ser tomada por estranhos e yuppies. Reconhece que o rock é bom, mas não é tudo, e flerta com os anos 80. Filosofa sobre se “é mais importante ser bom ou ser sábio” e admite que “somos rápidos em apontar nossos próprios defeitos nos outros”. Phrazes for the young é Casablancas, e nós, quase aos 30: mais maduros, mas ainda se descobrindo – ainda inquietos e famintos por algo mais, ao mesmo tempo em que nos agarramos a um mundo, e a uma época, que parecem nos fugir, desaparecer aos poucos nas pontas dos nossos dedos, ficar pra trás. O Strokes pode estar meio lá, meio cá, mas PftY oferece ao menos um orfanato temporário aos velhos fãs da agora velha “salvação do rock”. (Daniel Oliveira)

8. Yeah Yeah Yeahs - It's Blitz!

Melhor disco para levantar as mãos com o punho cerrado e olhos fechados.


Tudo bem, o gesto mais adequado para um disco de heavy metal. Mas eu não consegui outro gesto enérgico e expansivo melhor e os outros movimentos típicos da Karen O são muito difícieis de se descrever. Com It's Blitz!, os Yeah Yeah Yeahs mudaram completamente e não mudaram nada. Guitarreiro ou eletrônico, não faz diferença quando se tem trilha de Nick Ziner e atuação de Karen O. Nem precisava de composições como "Hysteric", "Zero", "Heads Will Roll", "Soft Shock" (vou parar pra não citar todas as faixas e perder o sentido) para ser um dos melhores discos do ano, mas a inspiração estava alta. (Rodrigo Ortega)

7. Grizzly Bear - Veckatimest

Melhor disco para fugir.


Têm discos que você sabe que se tivesse ouvido direito, estariam na sua lista. E esse álbum de nome estranho do Grizzly Bear é um deles. Parece que 2009 foi o ano em que os backing vocals viraram mais um instrumento no indie, e os ursos souberam usar isso de maneira mais objetiva e, arrisco dizer, honesta. Ouvir Veckatimest é como ser transportado para um lugar calmo, onde só existe você e a música - não estranhe se imagens de uma igreja (!) ou uma ilha deserta vierem à cabeça. Se "Foreground" e "Ready, Able" podem ser deprimentes, "While you wait for the others" e o ótimo single "Two Weeks" garantem o sorriso no rosto e a satisfação de ouvir um disco (bem) bom. (Taís Toti)

6. Lily Allen - It's not me, it's you

Melhor disco para pensar na família (ou desistir de constituir uma)


Pode não parecer, mas a inglesinha de 24 anos é uma moça de família. Se na estreia havia transformado zoeiras com o irmão num hit ("Alfie"), neste segundo disco tem como matéria prima a (falta de) relação com o pai ("He wasn't there") e o carinho pela mãe ("Chinese"). Mas nem tudo, óbvio, é chororô ou mimimi. Às garotas, destrincha por meio de uma historinha a impossibilidade de o "homem dos sonhos aparecer do nada e carregá-la nos ombros" ("22"); e ensina a inversão da ordem natural das desculpinhas para fim de namoro, no esperto título do disco. O namorado pode ser ruim de cama ("Not Fair"); ou o tempo pode fazer a garota perceber que "não há nada legal" no cara ("I could say"). Poderia ser o "melhor disco para colocar a culpa nos homens", mas é mais que isso. Lily joga a culpa pro lado das mulheres vez ou outra. (Braulio Lorentz)

4. (empate) Arctic Monkeys - Humbug

Melhor disco para colocar a culpa nas mulheres


Tudo bem, sei que grande parte do público dos Arctic Monkeys é de meninas que se atraem (ou se identificam?) pelas belas madeixas de Alex Turner. Mas Humbug, nas letras e no som, é pura música de menino. Da inegavelmente fálica "My propeller" à sem-paciência "Crying Lightning" (a namorada reclamona da letra parece a mesma de "Mardy Bum"), passando pelas guitarras Sabbath e Hendrix-wannabe, o orgulho masculino volta a brilhar no meio das novas divas na música pop. Sem contar "Cornerstone", simplesmente a melhor música do ano - a trilha imaginária para aquele seu momento de delírio amargo após o fim de relacionamento pode ser bem mais cool do que "De noite, eu rondo a cidade, a te procurar, seeeem te encontrar...". (Rodrigo Ortega)

4. (empate) Girls - Album

Melhor disco para ouvir vestindo camisa de flanela


Amigos reunidos, bebendo, fumando e ouvindo música, e a nostalgia de uma época que você não viveu. Os clipes do Girls conseguem traduzir exatamente a sensação que as músicas de Album passam. São o novo "1979", como bem disse o Ortega. No disco há um hedonismo que, se fosse permitido para menores, seria chamado de carpe diem. Que vem, é claro, com uma certa insatisfação: "I wish I had a sun tan, I wish I had a pizza and a bottle of wine". Um "a gente se fode mas se diverte" com vocais bipolares, guitarrinha repetida e escaleta assobiável. Em Laura e Hellhole Ratrace, a capacidade de lembrar as merdas do passado e de melhorar o futuro (ou presente mesmo). "I don't wanna cry my whole life through, I want to do some laughing too". A banda revelação de 2009 traz uma lição de vida para 2010. (Taís Toti)

3. The XX - The XX

Melhor disco para ouvir no silêncio


Poderia ser também "o pior disco para se ouvir em um lugar barulhento". Porque apesar de vozes agradáveis e barulhinhos eficientes, o melhor instrumento nesse adorável disco de estreia do XX é o silêncio. Os espaços vazios, os instantes entre uma mudança de batida e acorde que quase te tiram o ar, entrecortados por arranjos em que nada é gratuito: tudo isso merece uma audição calma, atenta, que te faça esquecer do caos lá fora. (Rodrigo Ortega)

2. Animal Collective - Merriweather Post Pavillion

Melhor disco para pensar em casamento


Merriweather Post Pavilion é trilha para levar os filhos na escola, para tomar café-da-manhã com a família, para ficar deitado (a) na cama vendo o (a) marido (a) dormir. Ë um disco pra pensar em casamento. Ou seja, é um disco perigoso.(Mariana Marques)

1. Franz Ferdinand - Tonight: Franz Ferdinand

Melhor disco para escutar de luzes apagadas.


Você pode falar mal do Alex Kapranos, mas não dizer que ele não é sexy pracaralho. O Franz Ferdinand seduziu o Pílula Pop com seu disco mais sombrio e misterioso. Especulações mil antes do lançamento, músicas mudando totalmente de arranjo na última hora e o resultado foi um CD cheio de hits de pista que apostam muito mais na elegência do que na euforia. De quebra, "No You Girls", a melhor música sobre a incomunicabilidade dos sexos da história. (Rodrigo Ortega)

Listas completas - veja o voto de cada um

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