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Eleições 2010

Overdose Oscar 2010

por Daniel Oliveira

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Como dizia meu avô, nada melhor que uma boa disputa sem favoritos. Na verdade, ele nunca disse isso, eu acho. O que não faz da afirmação menos verdadeira. Poucas coisas na vida são mais emocionantes e catárticas - além de uma ótima forma de acabar com suas unhas - que assistir a uma partida que só vai se decidir nos 45 do segundo tempo.

E, depois de muitos anos de cartas marcadas, é isso que o Oscar do próximo domingo promete ser. Apesar de alguns francos favoritos – leia-se Jeff Bridges (melhor ator), Mo'Nique (atriz coadjuvante) e Christoph Waltz (ator coadjuvante) - boa parte dos grandes prêmios da noite ainda está indefinida.

Quem leva o careca de melhor filme: o preferido do público ou o favorito da crítica? E o melhor diretor é O ex ou A ex? Será Bullock a Julia Roberts de 2010 ou, depois de três indicações nos últimos quatro anos, essa é finalmente a vez de Meryl Streep levar seu terceiro Oscar? E Tarantino: sai de mãos abanando ou não?

São as perguntas que você deverá lembrar a si mesmo quando aquele pensamento – por que mesmo que eu vou ficar acordado até 3h da manhã? - passar pela sua cabeça. E como Oscar é igual a eleição – não ganha o melhor candidato, e sim a melhor campanha – o Pílula antecipa o espírito do pleito 2010 (aquele em que você tem que votar em um moooonte de cargos) e levanta durante esta semana a ficha dos adversários nas categorias mais disputadas do próximo domingo. (Os demais indicados não têm chances reais de ganhar. E eles sabem disso. Malzaê, não é nossa culpa. Good luck next year).

Presidente

Diretor

por Daniel Oliveira

Fotos: Divulgação


Candidato: Guerra ao Terror

Vote no número: 54321

Plataforma de campanha: novo olhar e sopro de vitalidade a um gênero (o filme de guerra) e um tema (a intervenção norte-americana no Iraque).

Histórico político: cerca de US$ 15 milhões nas bilheterias norte-americanas e trocentos prêmios da crítica, festivais e sindicatos.

Coligações Partidárias: é o Davi que pode vencer o Golias de “Avatar”. Pequena produção independente, o filme estreou no Festival de Veneza em 2008 e foi o primeiro a derrotar a maldição que condenava todos os longas sobre a Guerra do Iraque ao limbo da ignorância de público e crítica. Seria o outsider da disputa, mas tem o apoio da Academia que, com uns tropeços aqui e ali, quer sempre passar uma imagem de austeridade, preferindo o “filme sério” ao blockbuster escapista.

Posição nas pesquisas: melhor filme segundo as associações de críticos televisivos, online, de Austin, Boston, Chicago, Las Vegas, Los Angeles, Nova Iorque, São Francisco, a Sociedade Nacional de críticos de cinema, o Bafta, Gotham Awards, Sattelite Awards e o Sindicato dos Produtores.



Candidato: Avatar

Vote no número: 2.500.000.000,00

Plataforma de campanha: fantasia, ecologia e o direito de todos a um avatar alien, gigante e azul.

Histórico político: US$ 700 milhões só na bilheteria dos EUA. E contando. Revolução técnica e consagração do novo salvador da indústria hollywoodiana: o 3D.

Coligações Partidárias: Fenômeno de bilheteria. Salvador de Hollywood. Parâmetro das novas regras do “jogo”. Novo paradigma dos blockbusters. É a vitória da indústria, independente de Oscar ou não.

Posição nas pesquisas: melhor filme segundo o Globo de Ouro.


***

Quem ganha: A última produção que ganhou o Oscar de melhor filme sem uma indicação para o elenco ou o roteiro (“Avatar” não tem nenhuma delas) foi “Grand Hotel”, em 1933. Era praticamente outra vida, em outra dimensão, com outra Academia. Hoje isso é muito difícil: atores e roteiristas somam mais de ¼ dos votantes e o longa de Cameron não tem muita força entre eles. Além disso, ele perdeu para “Guerra ao Terror” em outros três sindicatos de grande representação (e influência política) na Academia: dos editores, diretores e produtores. Então, mesmo que a bola da vez seja “Avatar” e que ele tenha boas chances no domingo, vamos apostar no longa de Bigelow. Com a mudança no sistema de votação (que copiou o nosso aqui do Pílula, mas sem saber como contar no final), há ainda a possibilidade de que “Guerra” e “Avatar” polarizem e um terceiro – como “Amor sem escalas”, “Bastardos inglórios” ou “Up” – acabe surgindo como o azarão da noite. Ou seja: tudo pode acontecer (menos “Um sonho possível” ou “Distrito 9” ganhar. Isso não pode acontecer).

Quem deveria ganhar: “Guerra ao Terror”. É o melhor filme. Simples assim.

Governador

Diretor

por Daniel Oliveira

Fotos: Divulgação


A ex.

Candidato: Kathryn Bigelow, “Guerra ao Terror”

Vote no número: 04

Plataforma de campanha: pela primeira vitória feminina na categoria! E porque mulheres também sabem fazer filmes de homem – in your face, Nancy Meyers e Nora Ephron!.

Histórico político: 30 anos de carreira como diretora, primeira indicação ao Oscar.

Coligações Partidárias: é uma estranha em Hollywood: uma diretorA que não faz comédias românticas, nem nunca teve um grande sucesso comercial. Sua maior credencial: ser ex-esposa de seu concorrente na categoria, um tal de James Cameron.

Posição nas pesquisas: melhor diretora segundo a Associação de críticos online, televisivos, do Sudeste, de Austin, Boston, Chicago, Kansas, Las Vegas, Los Angeles, Nova Iorque, São Francisco, Santa Barbara, Seattle, Toronto, Vancouver, Washington (fôlego), Sociedade Nacional de críticos de cinema, o Bafta, Sattelite Awards e primeira mulher a vencer o prêmio principal do Sindicato dos Diretores.



O ex.

Candidato: James Cameron, “Avatar”

Vote no número: 02

Plataforma de campanha: pelo direito de fazer produções milionárias com bilheterias bilionárias, inventar câmeras, tecnologias, planetas e línguas.

Histórico político: Segunda indicação ao Oscar. Venceu a primeira por um pequeno filme independente, chamado “Titanic”. Diretor das duas maiores bilheterias da história do cinema.

Coligações Partidárias: É um insider com fama difícil. Louco, megalomaníaco, nem um pouco humilde e um tanto grosso, faz os filmes que quer, do jeito que quer, com a tecnologia que quer – inventando-a, caso necessário. Depois de “Avatar”, provou que pode tudo. Se amanhã decidir fazer um remake dos “Três porquinhos” em 7D, eles vão deixar.

Posição nas pesquisas: melhor diretor segundo o Globo de Ouro.


***

Quem ganha: Nossa aposta é Bigelow. Porque seu filme é melhor. E está passando da hora de uma mulher ganhar o Oscar de direção (sem trocadilhos).

Quem deveria ganhar: Bigelow. Porque seu filme é melhor. E está passando da hora de uma mulher ganhar o Oscar de direção (sem trocadilhos).

Senador

Atriz

por Daniel Oliveira

Fotos: Divulgação


A melhor atriz do mundo. Mesmo nessa pose. Com esse frango.

Candidata: Meryl Streep, “Julie & Julia”

Vote no número: 16

Plataforma de campanha: para que todos tenham acesso à culinária francesa de qualidade (e pelo direito de ser a melhor atriz em atividade nos filmes mais medianos possíveis).

Histórico político: 16 indicações ao Oscar, cinco delas nos últimos 10 anos. Duas vitórias. Nome no topo dos cartazes dos maiores sucessos recentes entre o público feminino.

Coligações Partidárias: é a melhor atriz em atividade no cinema hollywoodiano. Ninguém questiona isso. Seu nome, além de universalmente respeitado, consegue se destacar nos filmes mais medíocres e, nos últimos anos, também passou a ser sinônimo de $$$.

Posição nas pesquisas: melhor atriz segundo as Associações de críticos Televisivos, do Sudeste, de Boston, Kansas, Nova Iorque, Phoenix, São Francisco, o Globo de Ouro e o Sattelite Awards.



Se Paltrow, Basinger e Berry puderam, ela também pode!

Candidata: Sandra Bullock, “Um sonho possível”

Vote no número: 666

Plataforma de campanha: esperança para as massas: se eu posso ganhar um Oscar, você também pode!

Histórico político: Primeira indicação ao Oscar (ou a qualquer outro prêmio respeitável). Já ganhou um SAG (do Sindicato dos Atores) pelo elenco de “Crash”.

Coligações Partidárias: Também é uma insider. Respeitada e admirada pelos colegas, mas no extremo oposto do espectro em relação a Streep: é a namoradinha, bonitinha, bobinha, porém simpática e educada com todos, que faz filmes idiotas e/ou insuportáveis.

Posição nas pesquisas: melhor atriz segundo a Associação de críticos televisivos, o Globo de Ouro e o Sindicato dos Atores.


***

Quem ganha: é uma das corridas mais disputadas e difíceis de prever nesse Oscar. Mas, esperando estar errados, apostamos em Bullock. A indicação de “Um sonho possível” a melhor filme mostra que a produção tem muitos admiradores na Academia e eles sabem que dificilmente a namoradinha da América terá outra chance de ganhar (ou mesmo concorrer) ao prêmio.

Quem deveria ganhar: é difícil dizer. Não vi Carey Mulligan em “Educação”, Helen Mirren em “The last station” nem mesmo Bullock em “Um sonho possível”. Mas Gabourey Sidibe é de tirar o fôlego em “Preciosa”. E faz 17 anos que Streep não leva a estatueta: eles ficam enrolando para dar outra à atriz, confiando que ela sempre terá outra chance. Uma hora vai ser tarde demais. Taí: essas duas, pelo menos, a gente pode garantir que merecem mais que Bullock numa personagem que foi comparada (eca, eca, eca) a Sarah Palin.

Deputado Federal

Roteiro original

por Daniel Oliveira

Fotos: Divulgação


O jornalista é sempre o descabelado: Boal é o primeiro ali no cantinho à esquerda.

Candidato: Mark Boal, “Guerra ao Terror”

Vote no número: 13

Plataforma de campanha: exposição crua e não-panfletária dos maus do mundo: guerra, vício e venda indiscriminada de DVD's piratas.

Histórico político: é experiente em conflitos: jornalista freelancer na Guerra do Iraque, autor do argumento de “No vale das sombras” e teve que vencer uma batalha para que “Guerra ao Terror” fosse produzido.

Coligações Partidárias: fora o argumento do filme de Paul Haggis, é um outsider em Hollywood. Esse é seu primeiro roteiro, sua primeira campanha ao Oscar e sua formação é em jornalismo, não cinema.

Posição nas pesquisas: melhor roteiro segundo o Bafta, Associação de críticos de Chicago e o Sindicato dos Roteiristas



The man

Candidato: Quentin Tarantino, “Bastardos inglórios”

Vote no número: 44

Plataforma de campanha: pelo direito de reescrever a história como bem entendermos – leia-se de forma mais violenta, cinematográfica e divertida!

Histórico político: Já ganhou o Oscar de roteiro e a Palma de Ouro por “Pulp Fiction”, além de ser um dos nomes mais identificáveis do cinema hollywoodiano contemporâneo.

Coligações Partidárias: É O insider hollywoodiano. Todos conhecem Quentin. Todos admiram Quentin. Todos querem trabalhar com Quentin. Porque, you know, ele é tão cool.

Posição nas pesquisas: melhor roteiro segundo as Associações de críticos Televisivos, Online, de Austin, Ohio, Kansas, San Diego, San Francisco, Toronto e (fôlego) Washington.


***

Quem ganha: apostamos em Bastardos: 1- Ele só não ganhou a principal prévia desse prêmio, o Sindicato dos roteiristas, porque Tarantino não é membro da associação, sendo automaticamente desclassificado. 2- A vitória do elenco na premiação do Sindicato dos Atores mostra que o filme tem um bom apoio da Academia. E 3- Harvey Weinstein, o melhor estrategista de Oscar da história, está fazendo uma campanha absurda pelo filme.

Quem deveria ganhar: Mark Boal. Porque seu roteiro desenvolve melhor os personagens, é mais instigante e bem amarrado. “Bastardos inglórios” é o melhor trabalho de Tarantino como diretor e no comando de atores, mas o roteiro é auto-indulgente em alguns momentos e arrastado em outros. Há ainda um cenário em que Boal e Tarantino se anulam, com Pete Docter e Bob Peterson levando o prêmio por “Up”. Achamos improvável.

Deputado Estadual

Filme estrangeiro

por

Fotos: Divulgação


#Medo do que eles vão fazer se não ganharem.

Candidato: A fita branca, de Michael Haneke

Vote no número: 1933

Plataforma de campanha: política severa de segurança pública, no melhor estilo “vigiar e punir”, com especial atenção para grupos suspeitos de crianças angelicais / menores infratores.

Histórico político: Haneke se estabeleceu nos últimos 15 anos como um dos novos “autores” do cinema europeu, com um nome que etiqueta não só seus filmes, mas um estilo narrativo. Nunca ganhou o Oscar, mas é um favorito de Cannes: tem uma Palma de Ouro (por este “A fita branca”), um prêmio de melhor diretor (“Caché”) e o grande prêmio do júri por “A pianista”.

Coligações Partidárias: O diretor austríaco teve uma passagem por Hollywood com a refilmagem não muito bem sucedida e/ou recebida de “Violência gratuita”. Some isso a seu cinema hermético, sem muitas concessões, e você entenderá por que Haneke é visto como um outsider em Hollywood.

Posição nas pesquisas: Palma de Ouro em Cannes; melhor filme estrangeiro segundo os Círculos de críticos Online, de Toronto, Chicago e o Globo de Ouro; melhor filme, diretor e roteiro no European Film Awards.



Sérgio Darin: Nos anos 00, quando éramos jovens, costumávamos dizer que ele era o Rodrigo Santoro argentino. Bons tempos...

Candidato: O segredo dos seus olhos, de Juan José Campanella

Vote no número: 2424

Plataforma de campanha: cinema clássico e melodrama argentino para todos.

Histórico político: O diretor portenho já concorreu ao mesmo prêmio com “O filho da noiva” e é um dos principais representantes da nueva onda do cinema argentino.

Coligações Partidárias: Campanella (sem parentesco com nosso ex-editor), ainda que latino, é um insider clássico: além de esta ser sua segunda indicação, ele é figura fácil da TV norte-americana, tendo dirigido episódios de séries como Law & Order: Special Victims Unit e Criminal Intent, House e 30 rock.

Posição nas pesquisas: melhor filme estrangeiro em língua espanhola no Prêmio Goya e uma série de premiações na Argentina e em festivais latinos.


***

Quem ganha: nossa aposta é em “A fita branca”. Porque ganhou a maioria das premiações até agora e porque, mesmo que indireta e hermeticamente, trata do tema favorito dos velhos do Oscar que votam nesta categoria: nazismo e segunda guerra. Mas “O segredo de seus olhos” conta com uma narrativa bem mais clássica e afeita aos gostos da Academia, além de ser dirigido por um nome muito bem relacionado em Hollywood. E esse mesmo comitê de filmes estrangeiros adora surpreender – alguém apostava em “A partida” ano passado?

Quem deveria ganhar: “A fita branca”. Porque, mesmo sem ter visto “O segredo...”, a gente odiaria a ideia de que a Argentina tem dois Oscar e nós não temos nenhum. Seria muito difícil viver com isso. Mesmo.

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