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Lost em ação

por Rodrigo Campanella

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Se Lost fosse um supermercado, a primeira coisa que você descobriria é que ali seu dinheiro não vale nada, os produtos estão na embalagem trocada e ter um facão serrilhado para abrir o leite em caixinha é muito bom.

Por que Lost? E por que não? No meio de todas aquelas tramas televisivas suaves especialmente adaptadas para não atrapalhar o paladar de ninguém, aparece uma série (estranha) sobre gente (estranhamente comum) perdida numa ilha (completamente insana) onde a cada episódio quase tudo parece se revelar um pouco mais complicado que a superfície pode aparentar.

Você pode dizer: mas isso de ‘as aparências enganam’ eu já vi até em Harry Potter! E bons mistérios já recheavam os primeiros anos de “Arquivo X” e do filhote “Millennium”, sem contar o fraquinho “John Doe”. A ótima produção e os problemas de identidade também remetem à recém-terminada saga de “Alias” e a multiplicidade das histórias não desagarra de um fio condutor para não embaralhar muito o espectador.... como 105% das séries americanas.

Por que todo esse sucesso então? Sem resposta única, todas as pequenas respostas convergem: Lost consegue enxergar seu próprio tempo e lugar muito melhor do que a maioria das coisas que atravessa sua televisão. E um pouco é sorte também.

Você iria até o supermercado procurando não os produtos, mas uma boa lista de compras. Quando você a encontrasse, voltaria para casa e jogaria fora tudo que não estivesse anotado.

O maior mistério de Lost talvez não seja encontrar uma solução mas sim conseguir desvendar ‘qual o próximo mistério?’. Listando: um monstro, os Outros, uma escotilha, o motivo da queda do avião, a Dharma, um menino estranho que sabe-se lá como tem grande afinidade com ursos polares. E não, isso não é tudo.


Para quem caiu de pára-quedas, uma sinopse: um avião se parte no meio, metade cai na praia e sobram quarenta e poucos sobreviventes. Ao invés de se preocuparem apenas em sair dali, a ilha se encarrega de entregar uma segunda missão: como sobreviver a ela ou, pior, compreendê-la.. A cada capítulo, um fragmento do passado de um dos protagonistas (nem todos os sobreviventes são atores principais) é contado em paralelo com os eventos que se desenrolam na ilha.

As prateleiras de Lost não formariam um labirinto simplesmente porque você não veria as prateleiras. Ou melhor, você veria. Mas elas não pareceriam prateleiras.

Porquê Lost não é ‘As Panteras:Detonando’: porque tem efeitos visuais e não (d)efeitos especiais. Porque continua o curso de pós-graduação iniciado em ‘Alias’ sobre ‘como filmar cenas de tensão para séries de TV’. Porque o fundo e o primeiro plano parecem ter sido filmados juntos. Porque a explosão daquele avião não parece ter sido criada em um Mac do começo dos anos 90. Porque fotografia aqui não é um acessório e sim um item de série – e além de tudo sabe usar bem a tal regulagem de contraste. Sinceramente, aquele avião caindo nem foi tão espetacular assim. Mas tudo que veio depois compensou. Cuidado e uns dólares a mais fazem bem, obrigado.

Quando você chegasse na boca do caixa com o carrinho, perceberia que o atendente é você. Que todos os atendentes são você. E que o carrinho, bem, ele também é você.

O passado dos protagonistas que se cruza em vários pontos e a forma quebrada com que eles vão sendo contados gera a mais nova paranóia no espectador: eles não caíram na ilha por acaso. Verdade ou não, acreditar nisso parece lógico depois de alguns capítulos, graças à narrativa e edição eficientes.


Jack e o desastre misterioso ou Matthew Fox e
o “desastre” do sucesso relâmapago

Por trás da trama, um pequeno jogo filosófico fica implícito: um dos protagonistas é um ex-paralítico chamado John Locke, que em algum momento se encontra com Danielle Rousseau, outra sobrevivente de longa data mas que nunca se rendeu ao lugar, ao contrário de Locke. Sem esperar que o seriado vire um livro de filosofia (o que não seria nem hora nem lugar), para além dos mistérios parece correr uma única pergunta, essencial, que Drummond já perguntava: “Que milagre é o homem?/Que sonho, que sombra?/ Mas existe o homem?”. Difícil pensar em uma pergunta mais especial para esse bicho que hoje em dia se depara com a questão chamada ‘identidade’ a cada dez minutos.

Lost seria o único supermercado regional com impacto na economia mundial. E a História contaria que foi lá que apareceu pela primeira vez um barrilzinho de latão escrito 'petróleo'.

Duvida da afirmação acima? Lost rendeu uma revista da série, um podcast oficial, o lançamento de um livro criado por um dos passageiros do avião (“Bad Twin”, de Gary Troup.), algumas novelas com a história de outros sobreviventes do avião, sabe-se-lá-quantos sites na internet e downloads via iPod. E isso é o começo.

A pirataria em massa que se instalou sobre os episódios forçou a rede ABC, exibidora original da série, a adiantar seus planos e começar a disponibilizar em seu site os episódios para serem assistidos online a qualquer hora. Isso sem contar todas as redes paralelas de distribuição dos episódios e de fabricação das legendas que foram criadas no mundo, dando cara ao atual boom da conexão de banda larga. Lost também servirá de inspiração para um jogo global de mistério, patrocinado por várias emissoras de todo o mundo, usando a televisão ou qualquer outra mídia disponível, de telefones a outdoors, com as informações se cruzando na WWW. Alguém ainda tem dúvida de que estamos todos perdidos?

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