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Parte 1

por Bernardo Krivochein

Fotos: divulgação

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Os vira-casacas

Pergunta: se o atentado terrorista final de V tivesse falhado, os protestantes teriam também tirado suas máscaras de Guy Fawkes?

É o clímax de “V de Vingançaâ€, no qual a morte de uma criança motiva a população a apoiar as ações do terrorista V (Hugo Weaving, mascarado), saindo às ruas e aguardando a derrubada do governo tirânico. A ação de V, envolvendo explosivos, um trem metroviário inteiro e uma starlet como Natalie Portman (com um grande público aguardando, a revolução não basta; precisa vir como espetáculo), respeita todas as normas de escala do cinema pop, mas também o falso-esquerdismo pop, “comunismo Coca-Cola†onde a situação conservadora é trocada pela oposição, supostamente justa, mas empossada e mantida por um golpe de estado.

Todos estão uniformizados, de corpo e de rosto, irreconhecíveis, e só revelam suas verdadeiras faces quando o sucesso da ação está confirmado e carimbado. É o medo anglo-americano do fracasso: mesmo com a insatisfação e revolta, os indivíduos não querem ser reconhecidos como aqueles que torceram pelo time que perdeu. A máscara protege. Em caso de derrota, todos retornam às vidas anteriores, sem represálias. A casaca das ideologias pode ser virada como convir.


O cartaz engana

Corte seco para 1988, em algum cinema assombrado por uma das últimas e melhores colaborações cinematográficas dos dois Coreys (os atores Corey Haim e Corey Feldman). Antes dos 30 minutos de “Sem Licença Para Dirigirâ€, Les Anderson (Haim) escapou por pouco do fracasso no teste prático de direção com um avaliador sádico. Nervoso durante o teste teórico e incapaz de acertar alguma das questões (é um subversivo – o filme trabalhará isso) ele espanca o computador, frustrado, ao esgotar o número de erros possíveis e ter sua sonhada habilitação negada. Terrorista nato, isso traz abaixo a rede de informática sem maiores esforços, levando todo o sistema de computadores a entrar em pane (“máquina†em “Sem Licença Para Dirigir†pode ser sinônimo de “sistemaâ€, “regimeâ€, “ordemâ€).

Nada foi planejado ou previsto. E não é uma vitória, mas a solução temporária e ilusória para os seus problemas. Assim mesmo, na incerteza, ele se assumirá orgulhosamente, escancarando um sorriso para a câmera enquanto tira sua foto para a carteira de habilitação. É o rosto feliz não daquele que subjugou o sistema vigente, mas de quem encontrou um desvio dele.

Não é o caso de desmerecer as excelências da produção em “V de Vingançaâ€, e muito menos a fonte original na qual o filme se baseia, e atenua. O fato é que o autor da graphic novel, Alan Moore, entrevistado para o site Coming Soon, compartilhou as seguintes palavras ásperas:

“(O filme foi) transformado numa parábola da era Bush por pessoas tímidas demais para estabelecer uma sátira em seu próprio país... É uma fantasia liberal americana distorcida, frustrada e altamente impotente de um sujeito com ideais liberais americanos confrontando um estado governado por neoconservadores. Os quadrinhos de “V de Vingança†eram sobre fascismo, anarquia, eram sobre a Grã-Bretanha.â€


Corey Haim e sua Mercedes

Adaptações cinematográficas não precisam ser irredutivelmente fiéis à fonte original. Mas o filme “V de Vingança†descaracterizou o original para adaptá-lo aos incômodos particulares dos adaptadores - neutralizando muito do potencial de questionamento.

A foto do rosto de Les, na carteira de habilitação, rasgada na sua presença pela diretora do Departamento de Trânsito é um ato de violência maior do que aquele sofrido por V. Ambos têm a identidade negada, mas V parte para aniquilar todos os envolvidos com a perda – comportamento patológico de dirigentes totalitários. Já Les tenta realizar o sonho de se tornar motorista sem “existir†já que, para o universo rodoviário, ele não está ali. E, no entanto, lá está ele, contestando todas as leis de trânsito e patrocinando momentos de semi-caos.

A rejeição às normas e as atividades marginais são a maneira de Les reclamar a existência que lhe foi negada pelas autoridades – idéia básica também de “V de Vingançaâ€. Mas a revolta de V é patuscada juvenil revoltada, esta idéia estranha de liberdade através do mero corte com os paradigmas sociais, negação do consumismo que ainda consume, desapego que acumula. O QG do anarquista V é um monumento em homenagem ao colecionismo mais elitista, preservando uma enorme quantidade de objetos de arte, livros, discos, filmes antigos e bonecos do Todd McFarlane.


V e sua estrela de cinema

V é um mecenas das artes banidas pelo governo orwelliano, mas não será surpresa se toda a coleção de álbuns do Kenny G estiver ao lado de um Renoir original: sua curadoria é apenas reflexo do consciente coletivo de “bom gosto†determinado pelas classes altas: “objetos raros, objetos caros, objetos únicos, mas que eu possuo.†Esquisito este conceito nerd que acredita no potencial revolucionário de sua caríssima coleção de memorabilias de “Battlestar Galacticaâ€: a indignação fica nas palavras e, em ações, patrocina-se o supérfluo.

A arte não é supérflua, mas “V de Vingança†patrocina uma idéia muito atual de arte resumida a objeto, um fundo de investimento em que, no ato da compra, o dono supostamente absorve a relevância estética e histórica daquilo, ainda que seja uma besta sem interesse ou sensibilidade. É a idéia que relaciona quantidade de dinheiro com conteúdo, comum no mundo em que vivemos, apenas repreensível para uns poucos idealistas otários como nós.

O erro, diagnosticado por Moore, é que “V de Vingança†ingenuamente acredita se alinhar “conosco†na linha de combate, mas está apenas reafirmando o que nega. Não estaria o próprio filme virando a casaca? Não seria “V de Vingançaâ€, com sua mensagem subversiva e superficial um agente infiltrado no “movimento de oposição†para desestabilizá-lo? Existe aqui o perigo de encará-lo não como peça de entretenimento, mas como um “bom soldadoâ€, peça representativa de idéias anárquicas filmadas sob o nariz conservador da indústria de entretenimento hollywoodiana: vários críticos, fãs e espectadores na ocasião do lançamento pensaram assim. A personagem Evey, ao que parece, também.

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