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Transformando vinho em água

06.01.05

por Rodrigo Campanella

Sideways – Entre Umas e Outras

(Sideways, EUA, 2004)

Direção: Alexander Payne
Elenco: Paul Giamatti, Thomas Haden Church, Virginia Madsen, Sandra Oh

Princípio Ativo:
Sem álcool, com afeto

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Servir um cardápio completo que acompanhe uma boa carta de vinhos não é trabalho fácil. Alexander Payne tenta se provar apto a essa tarefa fazendo de Sideways um menu variado. De entrada, um prato suave e irônico, retrato charmoso com um toque amargo. Nele, dois norte-americanos de meia-idade vêem suas vidas como um passeio rumo ao fracasso.

Um deles é o cabisbaixo Miles (Giamatti), conhecedor de vinhos, aspirante a escritor. Seu companheiro é Jack (Church), um grandalhão que fez sucesso como ator de TV, mas hoje é locutor de comerciais. Na semana anterior ao casamento do segundo, eles saem em uma viagem pela região vinícola da Califórnia. Beber bons vinhos e jogar golfe, propõe Miles. Transar a qualquer custo é o que Jack acha ideal. Os dois são apresentados em seqüências de lances suaves embalados por jazz.

Esse primeiro movimento é uma pequena ode ao cotidiano, à certeza de que a maior parte da vida é um grande lugar comum e nem por isso menos interessante. Numa conversa, há uma comparação entre as uvas pinot e os homens, que por si já é motivo o bastante para levar adiante a idéia de fazer um filme.

Porém aqui, já entramos no segundo prato. Nele, estão Maya (Madsen), uma garçonete conhecedora de vinhos, interessada em Miles, e Stephanie (Oh), atendente de uma adega pela qual Jack fica, bem, apaixonado. Daí em diante, todo o desenrolar do filme já está claro. Um bom prato onde o molho, muito doce, mascara todo o sabor.

A tela se transforma em comédia romântica bem feita, e só. Payne parece embasbacado diante dessa instituição americana que é a comédia romântica e não sabe se a ironiza ou venera. Querendo fazer ambos, tenta criar uma ‘comédia superior’, cheia de um charme e profundidade que já não estão ali. A câmera é carinhosa com as personagens, mas elas parecem perdidas no meio de um destino pré-formatado. Nisso, se esvai toda a mordacidade que poderia tornar o filme especial.

Entramos no último prato. Há a tentativa de retomar o charme do início, mas soa a requentado. Muito do sabor já se perdeu, até o apetite talvez. Restam pequenas pérolas. Há um plano de Giamatti sozinho no estacionamento após o casamento de Jack que resume boa parte da solidão no mundo. E há a cumplicidade e sutileza com que Payne trata seus pequenos homens (tão parecidos com todos) e sugere que viagens de auto-descoberta só acontecem com quem deseja se descobrir. Mas, enfim, é tarde e a conta está paga. O melhor parece ter ficado para uma outra vez.

“E depois que a boca estiver cheia você ainda pode usar o nariz pra caber mais...”

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