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Brilho eterno de uma mente sem lembranças

13.07.09

por Renné França

Valsa com Bashir

(Vals Im Bashir, Israel/Alemanha/França/ EUA/Finlândia/Suíça/Bélgica/Austrália, 2008)

Dir.: Ari Folman

Princípio Ativo:
memórias/lacunas

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Bashir Gemayel havia acabado de ser eleito presidente do Líbano quando foi morto por uma explosão em Beirute, em 1982. O atentado, promovido por palestinos, teve como resposta um massacre nos campos de refugiados, realizado por uma milícia apoiada pelo exército israelense. Teriam sido mais de 3.500 refugiados palestinos mortos e um trauma para muitos que viveram aquela guerra.

Entre os soldados israelenses no Líbano estava o diretor de “Valsa com Bashir”, Ari Folman. Seu filme é uma espécie de terapia catártica em um exercício metalinguístico de recuperar as próprias lembranças reprimidas a partir dos testemunhos de outros envolvidos no conflito. Partindo de uma imagem em sua memória, que ele mesmo não tem certeza se é realidade ou imaginação, Folman vai atrás de antigos companheiros do exército, tentando compreender por que não se lembra de eventos importantes daquela guerra, incluindo o massacre aos refugiados.

Usando vários depoimentos, o diretor cria um documentário em que o público é colocado também como alguém em busca de um passado, aos poucos preenchendo lacunas para finalmente ter uma visão do todo por completo. O horror da guerra, os abusos do exército, as denúncias políticas; tudo é encaixado de maneira a chocar, provocar reflexão e, ao mesmo tempo, oferecer ação e suspense bem dosados, alternando depoimentos reais com imagens eletrizantes para ilustrar tudo aquilo que é narrado.

Mas Folman assume a memória como algo inexato, muito mais ligada à imaginação do que aos fatos reais, o que ele explicita ao fazer de seu filme, concorrente à Palma de Ouro de Cannes em 2008 e indicado ao Oscar de produção estrangeira neste ano, uma animação estilizada. As imagens animadas revelam que aquela é apenas uma versão da Guerra do Líbano, um ponto de vista preenchido por construções ficcionais que se apoiam em eventos verdadeiros para narrar uma história.

O uso de animação também diminui um pouco a violência dos acontecimentos narrados, mas sem nunca esvaziar a força dos fatos. Usando cores fortes em contraste nas cenas de guerra, misturadas às tonalidades claras nos depoimentos e passagens mais tranquilas, “Valsa com Bashir” alia forma e conteúdo de maneira bem amarrada e ainda reserva um final atordoante que, resolvendo ou não os traumas de seu diretor, oferece uma memória impressionante para uma guerra muito pouco lembrada por aqui.

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