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Desconstruindo a roqueira

19.08.09

por Mariana Marques

Pitty - Chiaroescuro

(Deckdisc, 2009)

Top 3: "Me adora", "Fracasso", "Todos estão mudos"

Princípio Ativo:
Maquiagem escura

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Ainda que Chiaroescuro tenha um tom mais confessional que seus outros discos, Pitty prefere mesmo ensinar História, Filosofia e Literatura. A professora/roqueira/ídolo da MTV continua evitando escrever sobre o assustador sentimento chamado amor. É uma pena, já que “Me adora”, a canção que mais fala dessa coisa que vem do coração, é também a melhor do disco. Com um ritmo jovem guarda, uma levada um tanto quanto kitsch e letra meio Reginaldo Rossi, o primeiro single é pop digno de respeito. Mesmo quem normalmente torce o nariz pra cantora vai acabar sendo convencido pelo refrão grudento.

Pitty foi bem original ao lançar a faixa como primeiro single, mas não se engane: o restante do disco não segue a linha de “Me Adora”. A baiana ainda é roqueira e ainda escreve letras que – espero – vão fazer os adolescentes buscar as referências no Google. Desta vez vão poder aprender sobre Edgard Allan Poe, Simone de Beauvoir e Dostoévski. Muita gente pode achar complexo tratar de referências assim, mas pelo visto para Pitty nada é mais díficil que escrever sobre o amor. E antes que alguém reclame, sim, eu notei a balada “Só agora”. É bem triste, bem mimimi, mas o amor em questão aí é um sentimento materno. Não vale, ok?

Em “Água contida”, o início é melancólico com violinos, mas logo Pitty lembra que é do rock, chama as guitarras e grita no refrão. “Medo” prova que a baiana não vai perder tão cedo o rótulo de roqueira da nova geração (por mais que eu gostaria que ela se assumisse mais pop). Os gritos assustadores “Se corre o bicho pega/ se fica o bicho come” ao final dão até... medo! “Fracasso” confirma Pitty como boa letrista e é a mais notável dentre as que utilizam as guitarras de forma nada original.

Há algumas esquecíveis como “Descontruindo Amélia”, mas ainda assim com boas intenções (meninas, captem a mensagem da letra!). Na linha “feminilidade” há também “Trapézio” e a supracitada “Água contida”. Pitty sabe bem como é ser menina que chora muito e que acorda de ressaca depois de algumas tequilas na noite anterior. Nessas horas não adiantam as guitarras, a pose de rock e a maquiagem escura. O rímel vai sair de um jeito ou de outro.

Chiaroescuro vai terminando bem pra baixo com a sombria (ha-ha) “A sombra”. Ainda bem que a útlima faixa retoma o clichê roqueiro e tem letra revolucionária-otimista “Não espere, levante/ Sempre vale a pena bradar”.

Não é que a postura de roqueira seja ruim. Dá até pra ser condescendente com as guitarrias clichês quando sabemos das boas intenções. Mas ao relembrar outros hits da cantora ("Equalize", "Na sua estante"), fica claro que ela sabe muito bem fazer música pop falando de amor. Na matemática de Pitty, a soma “Pop + Amor” é > e melhor que “Rock + História ou Filosofia ou Literatura”.

Mais Pitty no Pílula:
- Receituário: (Des)Concerto Ao Vivo
- Receituário: Anacrônico
- Ressonância Pitty
- Overdose: Pitty ao vivo


Pitty em versão Amy-Jovem-Guarda-Assombração

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