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O velho e o moço

07.09.09

por Renné França

Up - Altas Aventuras

(Up, EUA, 2009)

Dir.: Pete Docter e Bob Peterson
Vozes originais de: Edward Asner, Christopher Plummer, Jordan Nagal, Bob Peterson, Elie Docter

Princípio Ativo:
carpe diem

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“Up – Altas Aventuras” possui um tipo de melancolia até então inédito nos filmes da Pixar. Ao escolher um velhinho rabugento para protagonizar uma aventura infantil, o estúdio mais uma vez nada contra a corrente e carrega na obra o peso da idade e a nostalgia de sonhos não vividos.

Carl Fredricksen é um vendedor de balões que, aos 78 anos, realiza o sonho de visitar uma região inóspita ao transformar sua casa em uma espécie de dirigível. O motivo da aventura é explicado no lindo prólogo da história quando, assim como em “WALL-E”, o estúdio cria um início de filme irrepreensível. Impressiona como, em uma econômica sequência, os diretores conseguem contar a vida do protagonista e estabelecer a força de um amor que guiará toda a sua jornada e servirá de sustentação narrativa para a história.

Na bela metáfora visual da casa carregada como um balão, “Up” traz o temor do nosso apego ao lar, o medo de perder a segurança de um lugar para o qual sabemos que sempre podemos voltar. Ao mesmo tempo, revela na obsessiva busca de Carl nossa procura pelo paraíso impossível, as metas que criamos para continuarmos sempre em frente e que, talvez, só no final da nossa existência, nos daremos conta de que a grande aventura já foi vivida. E o 3D contribui para essa sensação, como ferramenta narrativa discreta, ao utilizar a profundidade dos planos para ressaltar a dificuldade de atravessar fronteiras.

Mas o Sr. Fredricksen não segue sua jornada sozinho. Com o menino Russel, de oito anos, que estava na varanda da casa, cria-se uma improvável dupla que tem seu antagonismo destacado na própria forma dos personagens. Enquanto o ranzinza e antiquado Carl possui traços retos, com o rosto “quadrado” e duro, o rechonchudo e alegre Russel tem forma arredondada. O menino é a roda que move os eventos da história, guiado por sua curiosidade e ingenuidade infantis. Do encontro entre os dois nasce muita ação, cenas de cortar o coração e, claro, muito bom humor. Chico Anysio dubla Carl na versão nacional com sensibilidade alternada com momentos da mais pura ironia. Mas a graça de determinadas sequências, infelizmente, não esconde algumas deficiências do filme.

Docter (Monstros S.A.) e Peterson não são muito criativos, abusando de clichês de outras animações Disney, como animais “fofinhos” e vilões caricatos. E a resolução do conflito não combina com o clima construído até ali: faltou a coragem de levar até o fim a ousadia proposta no início. “Up” é como a lição que busca contar: são as escolhas que fazemos que nos definem. E são escolhas que separam um excelente filme de uma obra-prima.

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Um amor para toda a vida.

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