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Um espelho sem face

02.12.09

por Daniel Oliveira

Um segredo em família

(Un secret, França, 2007)

Dir.: Claude Miller
Elenco: Cécile De France, Patrick Bruel, Ludivine Sagnier, Julie Depardieu, Mathieu Amalric, Nathalie Boutefeu, Sam Garbarski

Princípio Ativo:
duplos e espelhos

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“Um segredo em família” começa como “um mundo pelo olhar de uma criança” à la “A culpa é do Fidel”. Torna-se uma observação da Disfuncional Família Francesa, como vários que o precederam, intercalada por flash-forwards em p&b, frios e reflexivos à la “O leitor”. No final das contas, porém, revela-se mais um conto sobre a “culpa dos sobreviventes” do holocausto – quase como um espelho ao citado filme de Stephen Daldry ou um irmão mais novelesco, e menos melodramático, de “A escolha de Sofia”.

Essa caesar salad dos clichês dramáticos é a receita do diretor Claude Miller para revelar o segredo do título. Mas ao emular tantos filmes e dar início a tantos eixos narrativos, o longa perde a cumplicidade do espectador e, com ela, seu foco emocional. Tudo é mastigado demais e pouco investimento é exigido do público, que parece assistir a uma tela ser pintada com acuidade técnica - só que suas reações pouco importam ao artista. Ao sair do cinema, a única coisa que se leva consigo é a ótima escolha da nata do cinema francês no elenco.

O filme se inicia com o pequeno François aos 8 anos, na França pós-guerra, assombrado pelo fantasma do menino atlético e corajoso que o pai, Maxime (Bruel), queria que ele fosse. Saltamos para 1985, quando François (o sempre ótimo Mathieu Amalric) sai em busca do pai, desaparecido após a morte do cachorro. E voltamos à sua adolescência na ocasião em que, aos 15 anos, ele descobre o tal segredo de família: as circunstâncias do casamento do pai com a mãe, Tania (Cécile de France, belíssima), que reverberam diretamente nos sentimentos de Maxime com relação a ele.

Nomes como Julie Depardieu e Ludivine Sagnier dão sustância ao flashback iniciado aí e que acaba sendo uns 60 ou 70% do filme. A edição de Véronique Lange costura bem os saltos temporais com alguns belos raccords visuais, mas não consegue esconder a quebra no ritmo. Como uma verdadeira novela, a trama passa a girar em torno de duplos e espelhos – as duas esposas, os dois filhos – em que a beleza e a obsessão por ela se tornam uma maldição.

Tudo isso, contudo, é subsumido pelo discurso verbal. Há que se destacar as breves, mas eficientes, referências feitas por Miller ao cinema nazista nas cenas em que François idealiza o idílio amoroso dos pais, mas o que importa em “Um segredo de família” é a trama literária, adaptada de um livro autobiográfico. O drama de Maxime e Tania revela-se, na verdade, uma análise da culpa dos sobreviventes judeus e suas consequências para as gerações futuras. Como discurso racional, é extremamente efetivo. Como cinema/arte/emoção, falta vida.

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François fuça. Procura. E acha.

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