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Apertem os cintos. O diretor não veio.

28.01.10

por Daniel Oliveira

Nine

(EUA, 2009)

Dir.: Rob Marshall
Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Judi Dench, Nicole Kidman, Kate Hudson, Sophia Loren, Fergie

Princípio Ativo:
O elenco. E só.

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De todos os pecados que “Nine” podia cometer, ele só não tinha o direito de ser entediante. O musical de Rob Marshall poderia ser exagerado, ostentativo, afetado e até um pouquinho caótico. Mas, baseado em uma das obras mais ricas de Fellini e com um verdadeiro dream team no elenco, chato é um defeito que eu não estava disposto a aceitar.

E não é que, alterando um fiapo de trama mal desenvolvido com números musicais sem nenhuma criatividade, Rob Marshall conseguiu a proeza? A impressão é de que o diretor confiava tanto no seu conteúdo e nos atores que não deu as caras para fazer sua parte. Só que o material não era tão bom assim. E mesmo o melhor dos elencos não faz milagre.

A estrutura do filme justapõe a história do cineasta italiano Guido Contini (Day-Lewis), sofrendo um bloqueio criativo às vésperas da filmagem de seu nono filme, com sequências em que ele imagina as mulheres de sua vida em números musicais. As cenas “tradicionais” representam a vida (caótica) do diretor e, reforçando a ideia de que o protagonista não consegue separá-la de seu ofício, os musicais surgem intercalados com os diálogos, apresentando as facetas de seu cinema. A figurinista Lilli (Dench) ressalta o lado do espetáculo; a amante Carla (Cruz), o sex appeal de suas obras; a repórter (sic) Stephanie (Hudson), o estilo e o hype; a musa e atriz Claudia (Kidman), a paixão pelos projetos; e a esposa Luisa (Cotillard), a dedicação incondicional - e irracional.

O problema é que esses musicais são

1. Pobremente coreografados
+ 2. Preguiçosamente decupados
+ 3. E têm algumas das letras mais óbvias já oitavadas no gênero
= 0. Abominavelmente ruins

Se existisse um Oscar de “melhor atuação para o pior texto”, Marion Cotillard seria imbatível pelo seu trabalho cantando uma música chamada My husband makes movies. Assim como ela, Day-Lewis, Dench e Cruz (nessa ordem) devem ser reconhecidos por tirar leite de pedra, ao interpretar canções de letras constrangedoras e rasas, que simplesmente verbalizam os sentimentos dos personagens sem acrescentar nada a eles.

Que vem a ser exatamente o que o roteiro de Michael Tolkin e Anthony Minghella faz com a obra-prima de Fellini. Mastigá-lo e empobrecê-lo até que a crise criativa do protagonista seja transformada em um melodrama romântico clichê, que só se salva pelas ótimas atuações. E até que a metalinguagem do original seja reduzida a uma pobre ironia: um filme sobre a busca por um roteiro feito por ótimos atores – em busca de um roteiro.

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Day-Lewis comemorando o que? O pior filme da sua carreira.

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