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As perguntas que não querem calar

18.03.10

por Daniel Oliveira

Um sonho possível

(The blind side, EUA, 2009)

Dir.: John Lee Hancock
Elenco: Sandra Bullock, Quinton Aaron, Tim McGraw, Kathy Bates, Jae Head, Lily Collins, Ray McKinonn, Kim Dickens

Princípio Ativo:
caridade cristã

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Você possivelmente tem muitas dúvidas sobre “o filme que deu o Oscar a Sandra Bullock:

“Um sonho possível” é horrível?
Não. Apesar da tradução brasileira para o título, que dá vontade de entrar em coma, e do cartaz que parece propaganda de igreja de beira de esquina, não se trata de um filme ruim. Mas também não é bom.

É um longa correto, emocionalmente didático, com um elenco decente e enquadramentos e decupagem televisivos. Não fosse a namoradinha da América, “Um sonho possível” seria exibido num sábado à noite modorrento em um canal da TV a cabo tipo Z.

Ela é Leigh Anne Tuohy, uma madame sulista que, num ato extremo de caridade cristã (sem cinismo aqui, é exatamente assim que o filme descreve), decide abrigar em sua casa mansão – e posteriormente se tornar tutora legal, aka adotar - Michael Oher (Aaron), um jovem pobre, negro e filho de uma mãe viciada. Com a ajuda dela e de sua família, Oher - que até então só possuía um short e duas camisas - se formou em um tradicional colégio cristão e se tornou um astro do futebol americano.

Mas a pergunta não é se o filme é bom, e sim: Leigh Anne Tuohy é boa?
Há que se tentar ser o menos cínico possível. Ela adotou um rapaz, ajudou-o a vencer na vida e teve sempre as melhores intenções. Admirável. Mas a forma como o filme narra isso, retratando a próspera família branca resgatando o pobre rapaz negro, é no mínimo questionável. É como se Leigh Anne fosse uma fada-madrinha (branca) que aparecesse em “Preciosa” e resolvesse todos os problemas (pretos) com sua varinha de condão.

Na maior parte do filme, os Tuohy tratam Oher como o novo cachorrinho da casa, dócil, educado e adestrável. A decisão do roteiro de fazer com que eles e o colégio praticamente obriguem o rapaz a jogar futebol americano - afinal, para quê mais serve um jovem negro robusto? - é desconfortável e equivocada, diminuindo os méritos tanto do rapaz quanto da família... e do filme (na realidade, Oher já tinha bastante experiência no esporte quando foi morar com Leigh Anne). E o contraste do “mundo branco”, civilizado e feliz, com o “mundo negro”, terra da violência, dos “mano” e das drogas, é bem canhestro e incômodo.

Isso pode ter conotações políticas?
Se você quiser, sua mente pode derivar para a intervenção no Iraque, Afeganistão, a disseminação do “mundo livre” nos moldes do Tio Sam... E, apesar de morrerem de medo na primeira noite que dividem o mesmo teto com um rapaz negro, os Tuohy se apavoram de verdade quando descobrem que a professora particular (Bates) contratada para o rapaz é democrata.

E a pergunta de 1 milhão de dólares: Bullock mereceu o Oscar?
Ela incorpora o andar, o visual, a atitude e o sotaque de uma socialite caipira, mas...NÃO. Nem fudendo.

Mais pílulas:
- Oscar 2010
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Sentiu a bagaça?

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