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O desinformado

19.04.10

por Daniel Oliveira

Zona Verde

(Green Zone, EUA/França/Espanha/Reino Unido, 2010)

Dir.: Paul Greengrass
Elenco: Matt Damon, Greg Kinnear, Amy Ryan, Brendan Gleeson, Khalid Abdalla, Jason Isaacs

Princípio Ativo:
ritmo & programação

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Depois de uma aula foda na faculdade - daquelas que mudam sua vida, desprogramam seu cérebro e te deixam mais perdido, tenso e confuso que “Lost” - quem ainda gostaria de voltar pro colégio e assistir ao “2+2 feijão com arroz”? A sensação de ver “Zona verde” depois de “Guerra ao Terror” é exatamente essa.

O longa de Kathryn Bigelow era sutil, polido e, ao mesmo tempo, complexo. Mais preocupado em instigar reflexão do que em fazer afirmações. Muitas pessoas tomaram isso como uma “falta de história”. Mas a verdade é que “Guerra ao Terror” se abstinha de ditar opiniões para que você tivesse a chance de criar a sua própria.

E por mais que o trabalho técnico do diretor Paul Greengrass mantenha sua excelência habitual, ele não impede que “Zona verde” pareça bem convencional e didático diante da obra de Bigelow. A câmera inquieta de Barry Ackroyd (indicado ao Oscar por...”Guerra ao Terror”) e a edição insana do vencedor do Oscar Christopher Rouse realmente jogam o espectador dentro de uma zona de guerra, criando a desorientação angustiante de se estar em meio àquele caos. Mas, durante a privação de sentidos causada pelo ritmo alucinante, uma mensagem está sendo programada. Um discurso está sendo feito.

E ele não traz nada de muito novo. Matt Damon é Roy Miller, líder de uma das equipes responsáveis por achar as armas de destruição em massa no Iraque recém-invadido. Frustrado com os fracassos constantes de suas missões, e com uma baita síndrome de “quero ser herói” - Miller não é Bourne, mas quer desesperadamente ser – ele segue uma pista dada por um ex-militar local (Abdalla) e desvenda...tcharan: que as armas não existem e que a guerra tem outros motivos, bem mais escusos e econômicos.

“Zona verde” parte daí para fazer várias constatações sobre o conflito no Iraque. A relação promíscua entre o governo dos EUA e jornalistas, que não apuram as informações divulgadas (ei, Minas Gerais, qualquer semelhança...). A construção de uma guerra por manobras de Relações Públicas. O conflito interno dentro da própria inteligência militar norte-americana. O resultado disso tudo (e da jornada de Miller) não é nenhuma novidade para quem tem acompanhado o noticiário nos últimos anos.

O problema é que o roteiro de Brian Helgeland esfrega isso na cara do espectador sem o mínimo de sutileza, transformando o filme em uma disputa entre Bons X Maus, Preto X Branco. Greengrass conta com um ótimo elenco para extrair o melhor possível do material, mas “Zona verde” acaba no meio do caminho entre filme de ação e thriller político.

Essa é uma guerra ainda sem resolução, o que o longa de Bigelow reconhecia ao se isentar de uma narrativa tradicional com começo, meio e fim. É um sinal da maturidade que falta a “Zona Verde”, com seu final ao mesmo tempo amargo e idealista. Com suas imagens que nos forçam a ver, mas não a pensar.

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“Famoso mesmo você, ein? Até o Tom Cruise te empresta o óculos dele...”

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