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All you need is a friend

18.05.10

por Daniel Oliveira

Mary & Max - uma amizade diferente

(Mary & Max, Austrália, 2009)

Dir.: Adam Elliot
Vozes de: Philip Seymour Hoffman, Toni Collette, Bethany Whitmore, Eric Bana, Barry Humphries, Renée Geyer

Princípio Ativo:
amizade

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40 anos atrás, os Beatles nos convidaram a olhar para as pessoas solitárias. Não aquelas sozinhas no sábado à noite. Mas aquelas que esperam com seu rosto numa jarra na janela. E que fazem sermões para ninguém. Aquelas que a gente evita ver porque dói.

Ao final, eles perguntavam qual era o lugar dessas pessoas. E isso meio que fazia a gente sentir pena delas. O que, apesar de ser muito gracinha da parte deles, não resolvia o problema. É aí que entra “Mary & Max – uma amizade diferente”, que não só nos faz olhar, mas acha um ‘lugar’ para os ‘solitários’.

A animação australiana começa como mais um filme-gracinha e, num determinado momento, atinge um escopo que pega de surpresa e te tira o ar, abalando (positivamente) todas as expectativas e certezas que você leva para o cinema. Ela narra a amizade dos dois protagonistas-título, uma garota de Sydney e um judeu nova-iorquino, que tem início nos anos 70 e segue por décadas, mudando os dois e a forma como eles enxergam a vida.

“Mary & Max” é dos raríssimos filmes que consegue reproduzir um dos aspectos da vida que a gente tem mais dificuldade em compreender: tristeza e alegria, choro e riso, beleza e miséria andam juntos. Um faz parte do outro. Na animação suja e ‘tosca’, o diretor Adam Elliot nos obriga a ver as desgraças, a sujeira e a repugnância da vida de Mary – garota feia, gorda e baixinha, maltratada na escola e abusada pela mãe alcoólatra – e de Max – obeso, sem família e portador de Asperger. Mas é no off das cartas que eles trocam que o filme nos apresenta o poder inimaginável da amizade dos dois, capazes de enxergar no outro a beleza que a superfície nos impede de ver.

O filme praticamente não possui diálogos, sendo guiado pela correspondência dos protagonistas – o que ressalta o isolamento deles e a singularidade de seu relacionamento, em que só um é capaz de entender o outro, mesmo em hemisférios diferentes. O roteiro não cai no erro de idealizar demais essa relação e sua autenticidade está exatamente nas falhas de Mary e Max, sempre tentando proteger o amigo e nem sempre sabendo qual a melhor forma.

O diretor acerta também na paleta de cores, ou na ausência delas. O mundo de Max é preto e branco (e cinza), o de Mary é sépia, e só as palavras do amigo distante trazem alguma cor e vida a eles. Elliot ainda constrói um suspense de arrancar o dedo inteiro numa sequência envolvendo uma caixa, uma porta e...uma corda. E detalhe: Philip Seymour Hoffman e Toni Collette como dubladores não atrapalha.

O grande trunfo da animação, contudo, é equilibrar o drama quase intolerável com o humor que inevitavelmente surge dele. A história do casamento de Mary, por exemplo, vai te fazer rir e chorar, como Giulietta Masina no final de “Noites de Cabíria”. “Mary & Max” arranca seu coração e o devolve machucado, porém mais forte. Assim como uma verdadeira amizade.

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Max vê Mary no espelho ;)

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