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Perdendo peças

21.06.10

por Daniel Oliveira

Toy Story 3

(EUA, 2010)

Dir.: Lee Unkrich
Vozes de: Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Ned Beatty, Don Rickles, Michael Keaton, John Ratzenberger, John Morris, Whoopi Goldberg

Princípio Ativo:
crescer

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“Up – altas aventuras” era, dentre uma série de coisas, sobre olhar para trás e contemplar as pequenas e imperceptíveis peças que compõem uma vida que valeu a pena. Uma vida... bem sucedida. “Toy story 3” é sobre crescer.

Crescer e descobrir que não se pode ter todas as peças. Que montar o quebra-cabeça envolve encontrá-las, mudá-las de lugar, separá-las para mais tarde – e, na maior parte do tempo, abrir mão de várias delas. A maioria, na verdade. Crescer é perder pequenos pedaços de si mesmo e substituí-los à medida que você descobre como montar o quebra-cabeça de quem você é.

É um processo que dói. Pra caralho. E por isso, “Toy story 3” vai te fazer chorar. Pra caralho. Porque os roteiros da Pixar têm essa habilidade de não simplesmente contar uma história, mas de atingir e expor nossos medos mais secretos, nossas emoções mais primais, nossa memória sentimental. Como se assistir a um filme deles fosse rever lembranças de algo que não exatamente vivemos.

Escrito pelo Michael Arndt de “Pequena Miss Sunshine”, o roteiro encontra os brinquedos de Andy tendo que lutar para provar que sua “vida” ainda é importante, ainda vale a pena, às vésperas da partida de seu dono para a faculdade. Presos por engano em uma creche dominada por um urso de pelúcia maligno, eles vão ter que afirmar quem são, o que querem ser e porque ainda são relevantes. A metalinguagem aqui não podia ser mais clara, em se tratando de um terceiro capítulo, cujos personagens não davam as caras há mais de 10 anos, de um filme que a Pixar não sabia se queria fazer.

Como nos demais longas do estúdio, a metalinguagem também está no formato, que simula o subgênero dos filmes de fuga (em especial “Fugindo do inferno”, com Steve McQueen) e seus planos mirabolantes. Procure ainda por referências a “O iluminado”, “Brinquedo assassino” e descubra que bonecos também têm “treinamento clássico”. O maior mérito da fôrma, porém, é o ritmo alucinante e envolvente - o que era de se esperar de Lee Unkrich, que assumiu a direção após editar os dois longas anteriores da franquia. “Toy story 3” não tem medo de colocar seus protagonistas em situações de risco assustadoras e você realmente teme pela... vida daqueles bonecos.

Esse trio ação-emoção-coração deixa claro que o filme não está no bloco mais conceitual da Pixar (ao lado de “WALL-E” e “Ratatouille”), mas sim no grupo de “Procurando Nemo” e “Up”. Provando que para o estúdio ela é uma das principais peças do tal quebra-cabeça, o centro emocional de “Toy story 3”, assim como na história de Carl e Ellie, é uma amizade. Porque é isso que a relação de Andy e Woody é. E quem não chorar na última cena entre os dois...putz, sinto por você. Que eles não façam a piada óbvia da Barbie burra é só um sintoma. A saúde da Pixar está na longevidade de seu coração.

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Dizer tchau para seus melhores amigos de infância. #Comofas?

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