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Como não ser legal

11.08.10

por Daniel Oliveira

Meu malvado favorito

(Despicable me, EUA, 2010)

Dir.: Pierre Coffin e Chris Renaud
Vozes: Steve Carell, Russel Brand, Jason Segel, Kristen Wiig, Will Arnett, Julie Andrews, Jemaine Clement

Princípio Ativo:
as três órfãs fofinhas

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Uma das melhores cenas de “A origem” é quando a equipe de ladrões discute como utilizar os problemas de seu “alvo” com o pai para facilitar o trabalho deles. Num diálogo genial, Dom Cobb argumenta por que plantar uma ideia positiva é sempre mais efetivo que uma negativa e por que o objetivo deve ser emendar a relação e não destruí-la.

Ele está falando de cinema. E, basicamente, explicando por que feel good movies divertidos, com finais felizes, quase sempre são maiores sucessos populares do que dramalhões trágicos e desesperançados.

“Meu malvado favorito” (e seu sucesso nas bilheterias dos EUA) é um ótimo exemplo dessa teoria. O filme sobre Gru, o personagem “detestável” do título original que, apesar da vilania e da péssima relação com a mãe megera, tem o coração amolecido e se torna um sujeito melhor após adotar três garotinhas órfãs é (nem um pouco sutilmente) desenhado para instigar bons sentimentos, valores positivos e esperança.

Fica claro pela mensagem “polyana” acima que “Meu malvado favorito”, apesar de alguns ingredientes para os adultos, é direcionado primordialmente ao público infantil. E foi exatamente pensando nesses pimpolhos que me senti extremamente incomodado ao ver adultos serem abusivos, displicentes e mesmo cruéis com as tais órfãs na primeira metade do longa.

Ok, o filme quer ser uma comédia, há uma redenção logo em seguida e o protagonista é um “vilão”. Mas em nenhum momento os diretores Pierre Coffin e Chris Renaud criaram um universo coerente o bastante para tornar aceitavelmente cômico (o que parece ser o objetivo) o mau trato das três garotinhas, que são de longe a melhor coisa da animação. (A caçula, por sinal, tem os traços descaradamente copiados da Boo de “Monstros S.A.”). Crianças não devem ser poupadas dos terrores do mundo e os filmes iniciais da Disney e Hayao Miyazaki tratam disso muito bem. O problema aqui, porém, é o tom engraçadinho, que soa desafinado e mal elaborado.

Tecnicamente, a animação é competente. O 3D é integrado de forma orgânica à narrativa, sem incomodar, e a voz de Steve Carell na versão legendada deve deixar o protagonista bem mais simpático. Aliás, um pedido desesperado aos dubladores nacionais: não usem sotaque carioca como substituto para a performance original. É ridículo (e te tira da história) pensar o que um malandro de Copa está fazendo em um filme norte-americano.

Convencional e exageradamente esquemático, “Meu malvado favorito” pode divertir os menos exigentes, mas não muito mais que isso. Se encontrar um espectador que, como o subconsciente de Robert Fischer, foi previamente treinado por outros tantos filmes com a mesmíssima fórmula, ele será atacado e não sobreviverá por muito tempo.

Mais pílulas:
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Uma coisa não tenho como negar: elas são muito fofas.

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