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At least I author my own disaster

25.08.10

por Daniel Oliveira

O último mestre do ar

(The last airbender, EUA, 2010)

Dir.: M. Night Shyamalan
Elenco: Noah Ringer, Dev Patel, Nicola Peltz, Jackson Rathbone, Shaun Toub, Aasif Mandvi, Cliff Curtis, Seychelle Gabriel

Princípio Ativo:
desastre autoral

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Devo admitir que tenho minhas dúvidas quanto ao papel do jornalista que escreve sobre filmes. Sempre me pergunto: entre

a) somente apontar o que não funciona,
b) dizer como poderia e/ou deveria ter sido feito,

qual lado da linha é o certo. Não sei se existe um. Apesar de pender mais para a primeira opção. Pois eis eu aqui quebrando minhas regras:

“O último mestre do ar” poderia ter funcionado muito bem, se o roteiro traçasse paralelamente as sagas do protagonista Aang e do antagonista Zuko, focando nas interseções das trajetórias e personalidades dos dois. Eles são os únicos personagens verdadeiramente interessantes da história – falhos, impulsivos e poderosos. E, apesar de Noah Ringer ser bem fraquinho como o primeiro, Dev Patel é de longe a melhor atuação do filme (o que não quer dizer muito) como o segundo, principalmente nas cenas com Shaun Toub, que vive seu tio.

Mas, do jeito que está, o filme é uma bagunça. M. Night Shyamalan não consegue em nenhum momento colocá-lo de pé - simplesmente porque ele não tem uma espinha dorsal. A impressão que fica é a de que o produtor, roteirista e diretor tentou comprimir em duas horas o máximo que pudesse do desenho original do Nickelodeon, sem jamais pensar em realmente adaptá-lo.

O resultado é um amontoado de cenas desconjuntadas e sem ritmo, guiadas esporadicamente pelo off de uma personagem secundária que Shyamalan parece ter inserido depois do filme pronto para tentar dar algum coerência à coisa. Pelo menos 90% do diálogo é redundante e/ou pobre e didaticamente expositivo. Com o elenco em sua grande maioria ruim, isso só piora – e, como aconteceu em “Fim dos tempos”, os atores bons parecem fazer bico, telegrafando com vergonha o texto que receberam.

Pior de tudo, o eixo narrativo que (aparentemente) deveria ser a saga do tal Aang – o “Avatar” do título do desenho original, capaz de manipular os quatro elementos (ar, água, terra e fogo) e transformá-los em armas – se perde no meio do filme. Com isso, o miolo de “O último mestre do ar” parece um limbo interminável sem nada pra dizer.

Dito isso, Shyamalan sabe filmar. Muito bem. Os planos são elegantes, os efeitos são decentes e a trilha, nada original, é epicamente adequada. Mas ele precisa de um roteirista para escrever seus filmes. E de um produtor a quem ele escute e obedeça. Ou isso, ou ele pode se tornar o novo vocalista do Of Montreal, admitir que seu passado “is a grotesque animal” e cantar a plenos pulmões “I'm flunking out, I'm flunking out / I'm gone, I'm just gone / but at least I author my own disaster”.

Mais pílulas:
- A pedra mágica
- As crônicas de Nárnia: o leão, a feiticeira e o guarda-roupa
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Não adianta, filho: nem com macumba muito forte você consegue convencer de que esse filme é bom.

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