Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Morrendo de medo (ou de ódio)?

30.12.04

por Daniel Oliveira

O Grito

(The grudge, EUA, 2004)

Direção: Takashi Shimizu
Elenco: Sarah Michelle Gellar, Bill Pullman, Jason Behr, William Mapother, Clea Duvall

Princípio Ativo:
Sustos encomendados

receite essa matéria para um amigo

“O grito” é o novo produto da última modinha de Hollywood: remake de filme de terror japonês. Pegando carona no sucesso de “O chamado”, de 2002, com Naomi Watts no elenco e cuja continuação chega aos cinemas em 2005, a adaptação de "O grito” teve o mesmo diretor do original, Takashi Shimizu. Quando vi isso, pensei que a refilmagem pudesse até ser acima da média.

Explico: a sacada dos filmes de terror da terra do sol nascente é não se levar a sério em nenhum momento. Sangue, sustos e tramas mirabolantes formam um pastiche de thriller policial com terror adolescente e cultura pop. Achei que com o diretor original, Hollywood pudesse se render à escatologia divertida desses filmes. Não sei se foi minha inocência ou meu humor que saiu mais abalado ao fim da sessão.

O filme é ruim, ruim mesmo. Daqueles que dá vontade de você pedir o dinheiro do ingresso de volta. Sarah Michelle Gellar (brigando pelo título de “Rainha do grito”, com o perdão do trocadilho) é uma assistente social fazendo intercâmbio no Japão com o namorado. Ela é indicada para substituir uma colega no trabalho e acaba numa casa assombrada por antigas mortes.

Os vários sustos encomendados, com o som subindo ao mesmo tempo em que um corte rápido mostra algo inesperado, poderiam até funcionar, vide “Pânico” e suas tantas cópias, que nos divertiram na década de 90. Mas a sutileza aqui passa longe, deixando o espectador com mais raiva do que medo.

A não-linearidade do filme é uma tentativa fracassada de tapar os vários buracos do roteiro. Só para exemplificar: quando a protagonista descobre que o namorado foi procurá-la na tal casa, por que, ao invés de sair correndo como louca, ela simplesmente não liga pro celular dele? Sem falar na “sessão mediúnica” do final, totalmente inexplicada.

Bons tempos aqueles em que se morria de medo no cinema por causa de uma interpretação estupenda, como Jack Nicholson em “O iluminado”; ou devido a uma direção angustiante, como Roman Polanski em “O bebê de Rosemary”. Ok, eu não tenho idade para ter visto esses filmes na tela grande, mas perdi o sono quando os vi em DVD.

A estória de "O grito” se baseia numa crença oriental de que quando alguém morre cheio de ódio ou tristeza numa casa, aquele lugar fica amaldiçoado para sempre. Se o mesmo valer para salas de cinema, essa maldição pode se abater sobre aquelas que exporem seus espectadores a porcarias como essa. E se preparem porque o filme fez sucesso nos EUA e já tem continuação engatilhada – isso sim é uma maldição.

Sarah Michelle Gellar e sua monoexpresividade
à la Reinaldo Gianechini

» leia/escreva comentários (3)