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O problema de ser eu mesmo

30.12.04

por Rodrigo Campanella

Colateral

(Collateral, Eua/2004)

Direção: Michael Mann
Elenco: Tom Cruise, Jamie Foxx, Jada Pinkett-Smith, Mark Ruffalo

Princípio Ativo:
L.A. é linda à noite

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Michael Mann é um diretor de Hollywood, festejado pela grande exigência na composição de cada cena e pela árdua preparação de atores. Tom Cruise é Tom Cruise, e isso é dizer muito. O peso de cada uma dessas sentenças faz de Colateral uma montanha russa de boas surpresas e constatações desagradáveis e é capaz de dar alguma explicação às últimas.

Chegar na prateleira da locadora e dar de frente com Colateral é, de certo modo, um alívio. Faça você mesmo o teste. Pare em frente dos lançamentos e procure algum filme que se encaixe bem no termo ‘sério’. Não um dramalhão romântico ou um policial espirra-sangue. Um filme denso, algo que se equipare ao gosto de tijolo na boca após assistir Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood. Dificilmente vai haver algum.

Colateral parece ser o filme ideal para preencher essa lacuna. Do material de divulgação aos cabelos grisalhos de Cruise, tudo leva a crer que o filme carrega consigo esse ar pesado, no melhor sentido. A história trata de uma noite crucial na vida do motorista de táxi Max (Foxx). Sem aviso, ele pega como passageiro o assassino Vincent (Cruise) e logo se vê obrigado a servir de guia para uma seqüência de assassinatos numa única madrugada

A expectativa de densidade não é sem sentido: a fotografia da noite de Los Angeles e o trabalho de closes de Mann estão entre as coisas mais charmosas e sérias que Hollywood apresentou nos últimos anos. Na outra ponta, o trabalho de Jamie Foxx como o motorista Max é de se tirar o chapéu. Da aparente banalidade tão bem construída do personagem surgem, em cada palavra e gesto, a inquietação e o clima de chumbo que percorrem todo o filme.

Mas é hora de voltar às afirmações do início do texto. Mann cresceu em Hollywood após o sucesso de O Último dos Moicanos, mas depende do sucesso para se manter ativo. É algo como um gerente de luxo, mas subordinado às bilheterias, o que parece obrigá-lo a optar por clichês que amenizem seus filmes. Bom exemplo são as diferenças gritantes na trama e diálogos entre Colateral e O Informante, também de Mann, exemplo bem melhor de sua capacidade.

Junto dele temos Cruise. Sua ambição e fascínio pelo cinema se equiparam à disposição leonina para o trabalho. Sempre simpático, dentro e fora das telas, o ator parece sofrer o efeito de sua própria imagem. No começo de Colateral (também em O Último Samurai) a máscara de “Tom Cruise” parece pesar acima do personagem. Ao longo do filme, sua atuação melhora profundamente. Só não é o bastante para acreditar que foi esse o dia em que Cruise realmente se entregou a um papel. Quando chegar, acredite, esse será um grande dia.

“E aí Tom? Se eu pagar os drinques você descola
um papel na Guerra dos Mundos pra gente?”

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