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Direito de morrer

28.01.05

por Daniel Oliveira

Mar Adentro

(idem, Espanha, 2004)

Direção: Alejandro Amenábar
Elenco: Javier Bardém, Belén Rueda, Mabel Rivera, Lola Dueñas, Tamar Novas, Celso Bugallo, Joan Dalmau.

Princípio Ativo:
Um assunto polêmico, um elenco de primeira...

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Ramón Sampedro queria morrer. Segundo ele, uma vida que acaba com sua liberdade não é vida – refutando um padre que lhe afirma que liberdade que acaba com a vida não é liberdade. Tetraplégico após um salto infeliz no mar aos 26 anos, ele não conseguiu se adaptar a sua nova condição, lutando por quase 30 anos pelo direito de abrir mão de seu sofrimento.

“Mar adentro”, filme do espanhol Alejandro Amenábar (Os outros), retrata a última fase da batalha de Ramón. Não faz dele um herói, um exemplo, um mártir: ele é simplesmente um homem que tomou uma decisão – morrer com dignidade. O diretor e o ator Javier Bardém, que interpreta o protagonista, sabem que não é um assunto nem um personagem fácil e tratam o tema com respeito e delicadeza.

O filme acerta ao não idealizar Ramón, mostrando-o como um homem sarcástico, por vezes amargo, e que não hesita em nenhum momento em sua resolução - mesmo que machuque as pessoas ao seu redor. Vem daí outro ponto forte da película: o núcleo familiar do protagonista, assim como seus amigos contam com um elenco de primeira, criando um ambiente crível, poucas vezes vistos em filmes como este, que quase sempre escorregam para as interpretações exarcebadas e individualistas. Se Bardém é sublime ao retratar Sampedro, as atrizes Belén Rueda, Mabel Rivera e Lola Dueñas estão impecáveis em seus papéis - respectivamente, Julia, advogada de Ramón; Manuela, a cunhada que toma conta dele; e Rosa, uma amiga que se refugia na relação com o tetraplégico. Ainda no elenco, Javi (Tamar Novas), sobrinho do protagonista; José (Celso Bugallo), seu irmão; e Joaquín (Joan Dalmau), seu pai.

A história caminha pelo sofrimento dessas pessoas, sem apelar para a pieguice ou o dramalhão – como Ramón diria, é um filme que “aprendeu a chorar com um sorriso”. Com exceção de algumas cenas mais exageradas ou a trilha – também assinada por Amenábar – resvala no melodrama, o diretor não se excede em um assunto que já é dramático demais.

“Mar adentro”, ao fim, consegue ser panfletário, sem ser radical. Como o próprio Ramón diz, somos todos assombrados pelo medo do fim e desassociar a idéia de morte a algo negativo é ainda muito difícil. Mas o filme mostra que, se a decisão dele parece egoísta, o sofrimento de quem fica – ou quem assiste - também é. A cena final é o arremate do que significa “morte com dignidade”, ou a liberdade que Ramón tanto prezava. Ele é alguém que preferiu permanecer vivo em suas poesias e ideais e o mérito do filme é não julgar essa posição. E quem somos nós para julgar?

Bardém antes do mergulho nos 30 anos de sofrimento de Sampedro

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