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Londres, segundo Allen

18.02.06

por Daniel Oliveira

Ponto final

(Match Point, EUA/Reino Unido/Luxemburgo, 2005)

Dir.: Woody Allen
Elenco: Jonathan Rhys Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Matthew Goode, Brian Cox

Princípio Ativo:
romances do séc. XIX

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Franz Ferdinand e Harry Potter podem vir à sua cabeça, quando você pensa na Inglaterra. Na mente de Woody Allen, a terra da rainha lembra pessoas de postura afetada e tramas românticas do séc. XIX.

Pelo menos, é isso que transparece em “Ponto final”. O filme – o melhor do diretor em muitos anos – é literário em cada mm. de película, com as vantagens e desvantagens decorrentes disso. Entre as qualidades, destaca-se a ótima caracterização dos personagens, complexos e ambíguos. Nos pontos negativos, pesa a falta de ousadia do enredo, já que – para ficar no Reino Unido – dramas de amor, morte e traição só não são mais batidos que banda inglesa querendo ser Beatles.

Se falta ousadia, sobra experiência. Ao contar a história de Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers), um professor de tênis dividido entre subir na vida e se entregar a uma paixão inconseqüente, Allen parece reger uma orquestra afinada – e a referência clássica não é gratuita.

O início logo se destaca em relação aos últimos filmes do cineasta, por fugir da histeria - com menos falas, mais eficientes. E o elenco é escolhido a dedo, com destaque para as mulheres. Emily Mortimer abusa do direito de ser pegajosa e sem sal, como a inglesinha Chloe, com quem Chris se casa. Sua atuação só deixa Scarlett Johansson mais sensual e tentadora, como Nola Rice, a estudante de teatro norte-americana e namorada do irmão de Chloe. O protagonista não sabe quem ela é, ao conhecê-la; ela o desafia para uma partida de tênis de mesa, proclamando-se imbatível. O jogo de enganos e sedução estabelece uma química imediata entre os dois, resumido na fala precisa do roteiro: “onde é que eu me meti?”.

O diretor trai sua Nova York, ao filmar pela primeira vez em Londres, mas os personagens ingleses têm uma interpretação afetada e diálogos pedantes. E, para Allen, a polícia inglesa não chega aos pés de uma C.S.I. Chloe transforma sua casa em uma galeria de arte, em que Chris parece ser oprimido. É nessa casa que o diretor filma um plano genial, em que o protagonista está prestes a revelar sua traição à mulher, e o fundo está dividido como ele: metade é um dos quadros de Chloe na parede, metade é a janela, o mundo para o qual ele parece querer se jogar. E Allen é hilário e sutil ao sugerir que “Diários de motocicleta” é um filme brochante.

Tudo isso resultaria num longa excepcional, “se”: ele tivesse um ato final menos esticado e cansativo; e Eça de Queirós não tivesse me contado essa trama, aos 16 anos, em O crime do Padre Amaro. Maldito “se”.

Johansson, como o fogo branco de “Ponto final”

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