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Minhas férias

08.06.06

por Rodrigo Campanella

Meu Amor de Verão

(My Summer of Love, Reino Unido, 2004)

Dir.: Pawel Pawlikowski
Elenco: Nathalie Press, Emily Blunt, Paddy Considine, Dean Andrews

Princípio Ativo:
promessas falsas

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“Ok professora, eu entendi bem o tema da redação, afinal qualquer pessoa no primeiro colegial já é PhD nesse texto pós-folga. Mas desta vez eu prefiro falar sobre outras férias, não as minhas. Não sei se você já ouviu falar de Mona e Tamsin. Possivelmente não, elas até apareceram no jornal mas bem pouco. Não foi no caderno de cotidiano nem no de política, mas no de cultura.

Mas se você leu algo sobre o assunto, guardou bem a historinha das férias delas: a primeira é uma órfã sem rumo que só tem no mundo o irmão recém-fanático religioso e a outra, uma riquinha entediada. Se conhecem, enamoram e vivem uma paixão durante as férias escolares de Tamsin. Com certeza a matéria devia destacar que era um filme gay, homoerótico ou citar Brokeback Mountain.

Sabe, eu fui lá ver as férias das duas e o filme não é isso direito. Para ser sincero, até agora eu não consigo entender para quê alguém faz um filme com um tema desses se é para não colocar nada em movimento – nem a consciência de quem assiste nem o coração das personagens.

Tem uma cena fantástica em que as duas deitam e desaparecem no meio das flores e a câmera fica parada, fritando, filmando o que ninguém vê mas todo mundo sabe. Só que essa parte é exceção. Quase todo o tempo as duas parecem bonequinhos de palito desenhados por um roteiro de viseira, cheio de metáforas fracas. Uma dá a entender que a menina x já veio com impulso na vida por natureza enquanto a menina y só vai conseguir andar por si mesma quando a primeira lhe der um empurrão, ou um ‘motor’. Quando eu percebi o filme explicando isso, me senti sendo chamado de burro.

Bem que as duas tentaram fazer as férias valerem a pena, viu. Quando você presta atenção no olhar da Mona (Nathalie Press) e da Tamsin (Emily Blunt), dá para saber que elas entendem que crescer, mentir e envolver são coisas bem mais complicadas do que um ajuntamento burocrático de opostos: razão e emotividade, fé na vida e erudição. Eu acho que a dupla que fotografou o filme sabia disso também. É incrível como eles fazem as meninas passarem de ninfetas a velhas amargas em apenas duas imagens, com uma simples troca de luz.

Mas o Pawel Pawlikowski, o diretor, resolveu ignorar isso, usar um papel de pauta grossa e escrever uma história rasa – de conteúdo, de coração, de forma. Daria um bom curta-metragem, como aquelas férias de um mês em que só uma semana realmente presta.”

O filme nem foi bom, mas pelo menos
a gente renova o guarda-roupa!

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