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Pulando os primeiros erros

22.11.06

por Daniel Oliveira

Wood & Stock: sexo, orégano e rock’n’roll

(Brasil, 2006)

Dir.: Otto Guerra
Vozes: Zé Vitor Castiel, Sepé Tiaraju, Rita Lee, Júlio Andrade, Léo Machado, Tom Zé, Otto Guerra

Princípio Ativo:
Orégano

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Inteligência não é nascer sabendo. É aprender com os seus erros e com os erros dos outros. A prova de que “Wood & Stock: sexo, orégano e rock’n’roll” sabe disso está em cada um dos pilares que o alicerçam:

Origens
Não é porque vem de uma tira de jornal que o filme tenha que ter um caráter episódico. Pelo contrário. A forte definição dos personagens e suas características, assim como a familiaridade do público, permite ao longa extrapolar o universo dos quadrinhos do cartunista Angeli, sem desrespeitá-lo.

O diretor e animador (e amigo do Allan Sieber) gaúcho Otto Guerra trabalha com um roteiro simples – o que não quer dizer fraco, nem mal amarrado. Wood e Stock passam o dia falando de Led Zeppelin, pregando paz, amor e anti-capitalismo (leia-se nada de trabalhar) e fumando...orégano. Quando a mulher do primeiro o deixa sozinho em casa com o filho, e o segundo se muda para essa mesma casa porque perdeu a mesada do pai, os dois decidem reviver a banda que tinham quando jovens.

Rê Bordosa é a vizinha, que também fazia parte da “geração paz & amor”, e hoje se concentra basicamente na prática livre e intensa desse último. A crise gerada por esse excesso de “amor” se encontra com o desejo de Wood & Stock de reviver os anos 70, gerando uma série de situações que fazem indie com nojo de hippie ter ânsia de vômito.

Animação
Teoricamente, tudo pode acontecer na animação. A não ser que o universo seja construído de forma confusa, sem justificar a ação. Guerra explora bem a ambientação suja e tosca – hippie mesmo – criada por Angeli. A simplicidade cartunesca casa bem com a – compreensível – falta de recursos para a animação no Brasil e colabora com a narrativa, ao invés de impedir seu funcionamento.

Isso faz com que os fãs de Wood & Stock sejam o alvo do filme - com várias referências a bandas, lugares e personagens freqüentes nos quadrinhos. Mas não há quem não ria do filho adolescente de Wood, desesperado e oprimido pela hiponguice do pai.

Canta, dança e representa
Cantor brasileiro no cinema é sinal de filme do Renato Aragão ou da Xuxa. A exceção confirma a regra. Em “Wood & Stock...”, Otto Guerra subverte isso, apostando nas caricaturas (não por acaso) de Rita Lee e Tom Zé. Ela, com uma voz chapada e um ritmo lesado (quase reflexo da realidade) como Rê Bordosa; ele, como um Raulzito surreal e viajante. E o que importa aqui é a voz – e disso os dois entendem bastante.

E o orégano?
Apesar das músicas do psicodélico Júpiter Maçã, para Guerra e seu filme, orégano é mais diversão descompromissada do que ingrediente de viagens lisérgicas e não-lineares. Cada um na sua.

Eles não tocam Raul, mas nem por isso o Raul
deixou de comparecer ao filme deles...

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