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Dos males, os fiapos

02.08.06

por Rodrigo Campanella

Viagem Maldita

(The Hills Have Eyes, EUA, 2006)

Dir: Alexandre Aja
Elenco: Ted Levine, Emilie de Ravin, Aaron Stanford, Kathleen Quinlan, Michael Bailey Smith

Princípio Ativo:
10min de carnificina

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O francês Alexandre Aja não tem necessariamente que carregar pela vida o fardo de ter realizado essa refilmagem sem-vergonha de “Quadrilha de Sádicos” (77), de Wes Craven. É fácil tirar seu nome dos créditos e ninguém notar, de tão grande a impressão de que boa parte do filme foi dirigida por uma apresentação de Powerpoint.

Seqüências de slide não escolhem elenco nem possuem desconfiômetro para detectar tensão ou atuações abaixo da linha do ridículo, o que só comprova a tese acima. Tudo bem: o jogo aqui é que os mocinhos não passam de saquinhos contendo sangue que viram a mesa no fim. Você sabe disso ao comprar o ingresso. O problema é quando o filme não sabe se investe na tensão ou na carnificina e, enquanto isso, obriga o público a conviver com personagens de papelão.

Depois de uma boa abertura a machadadas, somos rapidamente apresentados à típica família neurótica americana prestes a encontrar, no meio do deserto, o atalho de estrada que a levará à condição de suco para mutantes, tudo isso habilmente explicado.

A versão do diretor foi mutilada para receber uma censura mais branda nos EUA, mas há espaço para pensar que boa parte das idéias de Aja morreu na mão dos produtores (um deles o próprio Craven). Os três cenários mais interessantes (o cemitério de autos, a mina, a cidade mineira) são filmados com total desinteresse e a impressão de que a direção de arte e a fotografia ficaram na gaveta de casa, junto com o medo. Aja dá a impressão de menino que teve seu brinquedo quebrado e brinca apenas por obrigação.

Se em Crash o filme só existe para que numa certa hora você pule da cadeira para parar uma bala, todo “Viagem...” se arrasta apenas para alcançar uma grande seqüência de violência, pelos 50 minutos. Ali, Aja filma o terror físico como algo próximo da pornografia, e impressiona ver na tela como as duas coisas são próximas.

O que se segue é a escalada para mostrar a cada vez menor diferença entre os malucos que atacam e os que se defendem, com a sutil menção de uma bandeira americana enterrada no crânio de alguém. Está abertamente ali o 11 de setembro e a vendetta americana que veio depois.

Difícil não pensar também em como os mutantes lembram mendigos e o modo (anormal) como nós os vemos, assim como aquelas colinas têm algo da terra-de-ninguém que é uma metrópole brasileira à noite, lembrando que culpados, somos todos. Coincidência, nunca a pornografia (não o erotismo...) esteve tão presente em todo canto. Eis aí um filme de terror com cérebro, mas com extrema preguiça de ser cinema.

O personagem mais esperto do longa é o mais baixinho da foto

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