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Camada grossa

06.10.06

por Rodrigo Campanella

O Bicho Vai Pegar

(Open Season, Estados Unidos, 2006)

Dir.: Roger Alles, Jill Culton e Anthony Stacchi
Elenco: Martin Lawrence, Ashton Kutcher, Debra Messing, Gary Sinise

Princípio Ativo:
Kevin Smith esteve aqui

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Na fileira de trás, logo nas minhas costas, o menino de uns cinco anos insistia com a mãe para ir embora, com medo. Isso foi na hora em que uma discussão entre o urso e o alce parecia um duelo sangrento (era só um jogo de sombras), ou quando os mesmos bichos receberam uma carga maxi de tranqüilizante no traseiro, não lembro. O que eu não paro de pensar é que a criançada de hoje, encarando uma sessão direta de clássicos Disney no cinema, ia sair da sala com um trauma de presente.

Talvez seja minha memória pregando peça, mas aqueles filmes, se você tem só meia dúzia de anos, incomodavam bastante. Não pelos vilões, que de qualquer modo eram bem mais assustadores, mas pela presença constante da morte e do desconhecido ali no meio. Era isso, trazido dos não tão-inocentes contos de fada, e aquela técnica espetacular de animação o que eles tinham de melhor. É também o que falta para que “O Bicho Vai Pegar” deixe saudade, mesmo que no comando esteja um dos diretores de “O Rei Leão”.

Escavando um pouco esse “Bicho”, você encontra a mesma medida que forma a maioria das animações pré-adolescentes de hoje: uma grossa camada de situações e piadas recolhidas de vinte tentativas de roteiro diferentes que encobre, lá embaixo, uma massa fina de história. A exceção, até quando não acerta tanto, é a Pixar.

A qualidade do “Bicho”, porém, é que a graça funciona boa parte das vezes e a dupla protagonista ganha pela simpatia, mesmo pecando na originalidade. Boog é um urso domesticado que, por acaso, liberta um burro, perdão, alce falante do capô de um caçador. Problema, o alce é um carente emocional psicopata que vai libertar o urso do babador e levá-lo, a contragosto e expulso, para a floresta.

Há anos, animação em cartaz é certeza de semelhança com desenhos animados de tv, com graça para maiores de 15 anos e arremedo de história e personagens para os pequenos. Antigamente a questão era fazer qualquer filme ser acessível a uma criança de onze anos, hoje a mira animada procura o público que carrega duas dezenas de primaveras no RG. Lógica de mercado pura.

Mas o melhor mesmo é que esse “O Bicho...” parece escrito pelos irmãos caçulinhas do Kevin Smith, querendo imitar o próprio. O ursinho bebum em pleno sugar rush, a discussão das gambás na moita-banheiro e os coelhos são mais divertidos naquele clima ameno e açucarado de filme infantil. Piadas com o timing de uma molecada que cresceu dentro de um shopping, falando muito e muita besteira, mas com uma ironia pop, nerd e urbanóide bem divertida.

"Você é um burro?" "Não. E você, não seria o Homer Simpson?"

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