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Meia tomate seco com rúcula, mezzo calabresa

10.10.06

por Igor Costoli

Cafuné

(Brasil, 2005)

Dir.: Bruno Vianna
Elenco: Priscila Assum, Lúcio Andrey, Dilma Lóes, Carlo Mossy, Roberto Maya, Tessy Callado

Princípio Ativo:
Massa recheada

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Com 150 caracteres para descrever o longa, a sinopse acabaria ficando em algo como “dois jovens de classes sociais diferentes se apaixonam. Conflitos e preconceitos marcam essa relação conturbada, num Rio de Janeiro decadente”. Não estaria errado, mas seria tão insuficiente que tampouco estaria correto.

Débora (Assum) é apresentada como a garota rica, moradora do Leblon e com a vida tranqüila. Quando começa a se relacionar com Marquinhos (Andrey), com seu jeito meio malandro, largado, somos tentados a já imaginar como essa história toda d’a Dama e o Vagabundo continua. O diretor estreante Bruno Viana deve ter adorado isso, e se divertido muito em subverter essa expectativa.

A pequena sinopse sugere um conflito e uma violência que nunca chega exatamente a explodir, nem mesmo na hora em que ela efetivamente explode. Isso deixa o filme um tanto quanto sem alma, mas não o compromete. O melhor retrato que o filme faz é do fracasso de uma classe social que não está na miséria, e está longe de ser rica como pretendia. Ver a classe média carioca em seus medos permanentes da violência (como se milionários fossem), com seus grandes dilemas por conta de questões fúteis ou em suas pretensamente superiores atitudes paternalistas é o que de mais especial o filme nos traz.

Cafuné foi produzido através de recursos obtidos como premiação do Ministério da Cultura em concurso de longas-metragens para produções de baixo orçamento. A opção por fazê-lo em digital permitiu que, com os recursos, dessem conta de gravar em várias locações, dando a ele cara de filme e cara de Rio de Janeiro.

A fotografia estourada lembra um quê daquelas antigas produções nacionais, as pornochanchadas. Não, isso não foi pejorativo. Além de não comprometer a qualidade do filme, esse aspecto rústico serve ainda melhor de cenário à verdadeira estória que se esconde ao fundo da relação entre os protagonistas.

Personagens humanas, com forças e fraquezas, que compõem esse cenário complexo que não poderia ser mais bem explicado que na seqüência de onde vem o título desta resenha. Uma classe social que pede tomate seco e rúcula, mas que não se sustenta em pé sem calabresa. Um choque de mundos que acontece, na verdade, entre as classes que são mais próximas do que a de cima seria capaz de aceitar que são.

Faz carinho em quem tá gostando demais, faz...

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