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Xarope amargo

25.10.06

por Braulio Lorentz

John Mayer – Continuum

(SonyBMG, 2006)

Top 3: “Waiting on the world to change”, “Vultures” e “Belief”.

Princípio Ativo:
Anemia e Blues

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John Mayer anda comendo mal. A frase não é apenas uma menção ao atual par dele, a aprendiz de cantora Jessica Simpson. A falta de mastigadas de Mayer está materializada em suas 12 não tão novas músicas. A fraquinha “Gravity” e “Vultures” são do repertório do John Mayer Trio, que lançou CD ao vivo em 2005. A banda é completada pelo baixista Pino Palladino e o baterista Steve Jordan, que assina a produção de Continuum ao lado de Mayer.

“1, 2... 1, 2, 3, 4”: a contagem do começo de “Waiting on the world to change”, primeiro single, provoca uma ansiedade danada por não sabermos o que vem por ali. No caso, tecladinho esperto e voz rasgada estão a serviço de um tema pelo qual John não havia se aventurado tão explicitamente. “Se ele está dizendo que o mundo precisa mudar, ao menos deve ter começado por si mesmo”, pensei.

As incursões de Mayer nos três anos sem gravações da carreira solo também levavam a crer que vinha algo bem mudado pela frente. Além do trio que leva seu nome, as participações em discos de senhores como Buddy Guy, BB King, Eric Clapton, John Scofield e dos rappers Kanye West e Common eram indícios de novos ares.

E a idéia é essa mesmo. O cantor norte-americano de 29 anos deu um tempo nas batidas batidas das canções que compõe e grava desde os 22, quando lançou seu primeiro disco independente. A partir de então, compará-lo com James Stewart não era algo descabido. Do mesmo jeito, dizer que foi ele quem abriu a porta para James “You’re Beautiful” Blunt, Daniel “Bad Day” Powter e Teddy “For you I will” Geiger tem uma ponta de verdade.

Já vou falando que gosto das músicas do cara e já tentei apresentá-las aos meus amigos – confesso que apenas algumas amigas e minha namorada gostaram do som. Mas os pormenores desta terceira empreitada são de surpreender quem achava que o xarope de outrora era doce demais.

Continuum é uma versão anêmica e amarga dos trabalhos anteriores Room For Squares (2001) e Heavier Things (2003). Nada remete ao frescor de seu maior hit, “Your body is a wonderland”, ou às plugadas comedidas do segundo petardo.

Em “Vultures”, Mayer faz Justin Timberlake e Jake Shears, do Scissor Sisters, soarem guturais como um João Gordo da vida. “Bold as love”, de Jimi Hendrix, é uma das poucas vezes em que o ouvinte é chacoalhado. Essa e outras interpretações, no entanto, ficam entre o frio (“Stop this rain”, “Slow dancing in a burning room”) e o morno (“The heart of life”, “Dreaming in a broken heart”, “Belief”).

Jessica, por favor, dê um pé na bunda deste nosso novo blueseiro. A melancolia seria e soaria bem mais sincera.

Sim, até o cabelo de Mayer mudou

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