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O coelho de Nolan

05.11.06

por Rodrigo Campanella

O Grande Truque

(The Prestige, Reino Unido/Estados Unidos, 2006)

Dir.: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Hugh Jackman, Michael Caine, Scarlett Johansson, David Bowie, Andy Serkis

Princípio Ativo:
Enxergar e não ver

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Na capa de uma edição nacional de “Pastoral Americana” de Philip Roth, há um recorte de uma fotografia de Arthur Leipzig, “Chalk Games”. É uma imagem que sempre me impressiona e, mesmo sendo fragmento, vale para mim como a original. Tudo está certo: movimento, ângulo, enquadramento. Ali e no filme corre o mesmo segredo, o mais simples: “O Grande Truque” alinha uma história simples contada da forma mais interessante. Ao fim da sessão, instintivamente fechei forte os olhos e reabri de pouco, como para gravar bem aquele momento. Um dos motivos vai para o grande trabalho, tudo menos simples, com conceitos de herói e vilão.

É ótimo sair do cinema se sentindo respeitado como ser dotado de cérebro em funcionamento – e com diversão. Na história comum de muitos mágicos que disputam o melhor truque, a pedra de toque é na verdade derrubar o segredo do outro, o filme diz. E faz com que a inveja conte a história, usando palavras roubadas do diário de um oponente.

Vamos sendo, diante das pistas mais simples, lançados para o vácuo. Lembra uma frase do protagonista explicando um livro em “There’s No Other”, filme de 1963: “Menos simples, o que ele alcança é uma história onde a ilusão pode servir para falar”. E falamos, de modo mais simples, a um só tempo de inveja ou de cinema.

O que parece mover tanto a nossa admiração por “O Grande Truque” quanto o próprio diretor Christopher Nolan é a memória do que pode ser e já foi feito com o cinema. Memória é sempre menos simples: aquele lugar para onde todos vamos ser iludidos por imagens que nossa mente move.

O elenco é essencial na construção. Mais simples, nunca chegaria a tanto se não contasse com um Christian Bale (Borden) melhor impossível. A partir dele, tudo tende a ser... menos simples – e com a vontade imensa de não divertir usando verdades absolutas. Ou a mera quebra da ilusão.

Entre os dois mágicos que disputam o melhor truque, a pedra de toque é dividir o segredo do outro. A inveja conta a história: ambos lêem o diário roubado do oponente. E é ótimo sair do cinema respeitado como ser dotado de olho em possível bom estado de funcionamento – e com diversão.

A chave é tornar a simplicidade nada - fazendo parecer tão fácil a ilusão para uma platéia que vai ali se embebedar de não saber até que ponto o passe de mágica pode ser real. Mais simples, o truque último é esse: misturar na substância do filme a mesma dúvida do público. E buscar algo que é bem menos simples, ser tão honesto que algo se torna universal. Como quando ela estendeu a K. a mão trêmula e o mandou sentar-se ao seu lado; falava com esforço, era preciso se esforçar para entendê-la, mas o que ela disse

Aproveite bastante esse momento: é um dos poucos
em que as coisas ficam realmente claras.

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