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Uma cara, várias coroas

01.12.06

por Rodrigo Campanella

O Labirinto do Fauno

(El Laberinto del Fauno, México/Espanha/Estados Unidos, 2006)

Dir.: Guilhermo del Toro
Elenco: Ivana Baquero, Sergi López, Doug Jones, Maribel Verdú, Ariadna Gil, Alex Angulo

Princípio Ativo:
gosto de couro

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Existem textos que guardam algo além do que qualquer teoria literária alcança. Fagulhas que não estão nem no escrito nem no olho de quem lê, mas nesse encontro. Há quem chame um texto desses de mágico, ou diga que é imaginação.

“Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta.”

Um dos meus chama-se Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Volto a ele de anos em anos, sempre com gosto, para avançar poucas páginas. Por seu lado, “O Labirinto do Fauno” não é um livro, mas contém aquela propriedade física das grandes histórias, mesmo as mínimas: o peso. E não se trata de gramas.

“Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa.”

Não há como desmembrar “O Labirinto” e a partir das peças tão bem polidas explicar seu funcionamento excepcional. Dá para dizer que a embalagem é a maturidade do diretor. Guilhermo Del Toro, fascinado e horrorizado com a simbologia fascista, fez dela combustível e substância de seu filme. Mas se em “Hellboy” isso era cartunesco, o novo filme é a lembrança latejante de que aquilo não foi brincadeira, dia nenhum, hora nenhuma. Parece a constatação de que o ridículo do Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, já tinha algo muito assustador.

“O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade.”

Mais do que a compulsão de ordem embrulhada em couro do fascismo, Del Toro constrói a iconografia da alma dentro dessa rigidez. Sua tocha é a menina Ofélia, morando sem querer num quarteleco comandado pelo padrasto, Capitão Vidal (o perfeito Sergi López), que se descobre princesa de um reino mágico, isolado dessa realidade. No labirinto até lá, a alma do terror pela frente e um fauno como guia.

“Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo”

Del Toro opera o milagre de transpor espírito e carne do fascismo, num filme sem conclusões exatas. Em um mesmo plano, faz andar dois caminhos paralelos, com portas para tantos outros. Talvez seja, no fundo, apenas uma história de pais e filhos. Dos filhos de um século cujo terror ainda parece inacreditável.



Obs: Os trechos em itálico são do conto “O Espelho – Esboço de uma Nova Teoria da Alma Humana”, de Machado de Assis.

Quem é que teria o direito de dizer que isso é imaginação?

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