Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Onde é o próximo ponto?

15.12.06

por Daniel Oliveira

Caminho para Guantánamo

(Road to Guantanamo, Reino Unido, 2006)

Dir.: Michael Winterbottom e Mat Whitecross
Elenco: Asif Iqbal / Afran Usman, Shafiq / Riz Ahmed, Ruhel / Farhad Harun, Monir / Waqad Siddiqui

Princípio Ativo:
ser humano. E do que ele é capaz.

receite essa matéria para um amigo

“Caminho para Guantánamo” poderia ser uma comédia de Sessão da Tarde a la “férias frustradas”.

O inglês Asif vai para o Paquistão se casar, acompanhado pelos amigos, Ruhel, Monir e Shafiq. Só que o timing da cerimônia não é dos melhores: poucos dias depois dos atentados às torres gêmeas. E os quatro ainda decidem fazer uma “visitinha” ao Afeganistão antes do casamento. E pronto: “agora esses quatro amigos vão encontrar muita confusão!”.

Poderia ser uma comédia, se não fosse real, se não envolvesse violência, guerra, tortura psicológica e o abandono de qualquer noção de humanidade. Se eles não fossem confundidos com talibãs e demorassem mais de três anos para voltar para casa. Se o diretor Michael Winterbottom não misturasse documentário e ficção – entremeando a encenação do acontecido com o depoimento dos ingleses.

Enquanto Monir se perdeu em meio aos bombardeios, e nunca mais foi encontrado, Asif, Ruhel e Shafiq foram presos pelos militares do Tio Sam. E apresentados à especialidade da casa da galerinha camuflada: gritos/espancamento a la “24 horas” e “Nascido para matar”, confinamento em caixas fechadas e gaiolas, humilhação e fome. Isso, claro, antes de conhecerem o Top de linha da empresa: a prisão de Guantánamo, em Cuba.

Lá, os três viveram em jaulas menores que as de um zoológico, onde não podiam rezar, ficar em pé ou falar. Vez ou outra, eram “enviados” para um passeio na solitária ou sessões de tortura a la “Laranja mecânica”.

Os 95 minutos de “Caminho para Guantánamo” são a prova de que o mundo é um lugar horrível; a humanidade é um equívoco divino, que não aprendeu nada com a Segunda Guerra – e a Terra seria bem mais razoável e legal se administrada por cachorros. Em certos momentos, os oficiais americanos parecem saber que os três não são culpados. Mas eles não ligam muito. Preferem usá-los para tentar conseguir informações dos outros presos.

A direção de Winterbottom nem precisa de muita genialidade ou invencionismos. Ele se limita a interpor sua câmera com as grades das jaulas e prisões, buscando transmitir um pouco do que os ingleses enfrentaram nos anos que passaram longe de casa.

Se ao final do longa, Asif, Ruhel e Shafiq estão felizes por terem sobrevivido, eu saí do cinema sem o pouco de fé que ainda tinha no ser humano. Olhei para a decoração de natal inundando a cidade e a depressão de nossa “profunda superficialidade” só tornou tudo pior. E ainda consegui pensar que, depois de tudo que tinha visto, ainda assistiria – e, provavelmente, me divertiria – com a próxima temporada de “24 horas”. A humanidade realmente não tem esperança.

Tratamento de luxo. Cortesia: Militares do Tio Sam que viram muito Rambo.

» leia/escreva comentários (6)