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O ralo e o rabo

18.01.07

por Fernando Guerra

O cheiro do ralo

(Brasil, 2006)

Dir.: Heitor Dhalia
Elenco: Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Flávio Bauraqui, Fabiana Gugli, Sílvia Lourenço, Suzana Alves

Princípio Ativo:
Um diretor que cumpre

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Com a tenda da Mostra de Cinema de Tiradentes lotada naquela noite de sábado e após perder o lugar para uma certa celebridade invasora que pintou por lá, acabei me acomodando (até onde pude) no igualmente disputado tapete vermelho que cobria o piso da praça. O desconforto, no entanto, valeria a pena. “O Cheiro do Ralo” estava prestes a começar.

Baseado na obra de Lourenço Mutarelli, autor conhecido por retratar de maneira crua a miséria humana, o filme traz o neurótico protagonista Lourenço (que, no livro, não tem nome), um comerciante que usa a profissão como terapia sádica de destruição das pessoas ao seu redor. Ambientado majoritariamente nesse local de trabalho, o longa trata do relacionamento entre o personagem e as coisas que ele pode comprar, já que as pessoas não têm a menor importância.

“Não gosto de você. Nunca gostei de ninguém” diz à sua noiva às vésperas do casamento. Na loja de penhores, sua posição de negociador garante uma superioridade que permite essa degradação alheia. Em uma seqüência escatológica, ele oferece dinheiro ao encanador para que ele coma sua… bem, a origem do cheiro do ralo.

Sua relação com as coisas é bem mais intensa, no entanto. Por isso a bunda, o ralo e o olho acabam se tornando personagens da história. O ralo é basicamente a forma como o personagem encara a si mesmo. O fedor é percebido por ele e pelos outros (ainda que poucos se manifestem a respeito) e causa um incômodo. Mas nem por isso o autor se desfaz do problema. Apenas tenta encobri-lo.

A bunda representa toda a motivação do personagem de cabo a rabo no filme. E ele deixa claro que é apenas a bunda: “Eu pagaria para ver aquela bunda” afirma, desconsiderando “o resto” da mulher. O olho, que também garante cenas engraçadíssimas, é uma tentativa patética de reconstrução da figura de um pai fictício.

É nesse clima de degradação à brasileira (essa habilidade do brasileiro em tornar piada a própria desgraça) que o filme é brilhante. É tão escroto que fica engraçado. E o Selton Mello está perfeito como “escrotagonista”. A narrativa do filme lembra muito uma história contada em tiras, com seqüências e situações curtas, mas imprescindíveis ao todo. Já os tons do cenário e as seqüencias de Lourenço caminhando para o trabalho dão um toque sutil de solidão, mas sem que isso seja levado muito à sério.

O Cheiro do Ralo oferece uma experiência sinestésica. Você vai ver, sentir o cheiro e ainda vai ouvir falar muito nele. E vai gostar.

Sério: “Dá uma viradinha e...mostra a bunda aí!”

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