Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Atirando da berlinda

02.02.07

por Rodrigo Campanella

A Conquista da Honra

(Flags of Our Fathers, EUA, 2006)

Dir.: Clint Eastwood
Elenco: Ryan Phillippe, Jesse Bradford, Adam Beach, Barry Pepper, Jamie Bell, Paul Walker

Princípio Ativo:
lama histórica

receite essa matéria para um amigo

What´s the story (morning glory)?

Há um momento em “A Conquista da Honra” onde é possível sentir o significado universal da palavra ‘desgraça’. Estamos no meio de um massacre de soldados americanos alvejados por artilharia camuflada japonesa, na praia de enxofre da Ilha de Iwo Jima. A cada rajada de tiro o tapete de corpos e membros decepados dos dois lados se estende mais. Mas nesse momento o filme já arrancou qualquer ilusão que você tenha sobre patriotismo, enquanto a fotografia continua drenando a cor de tudo que não é sangue. Ao secarem as cores e as ilusões dos uniformes, secam também as bandeiras que os tocam em frente. E a guerra se revela como homicídio completo, sem atenuantes.

Clint Eastwood é um dos poucos diretores atuais que, quando não acerta em cheio, faz bons filmes. Nesse “A Conquista”, ele parte de um ponto básico: a guerra é uma atividade humana. Não é preciso gastar quarenta minutos empurrando motivações históricas e outros cinqüenta tentando transformar cicatrizes em glórias.

Se a guerra é um ato humano, e não o fato épico que você conhecia amplificado pela boca dos outros ou nos livros adaptados para o cinema, ela bate na porta da sua casa. Dessa identificação vem o cheiro de desgraça, multiplicado por cada corpo abatido cuidadosamente sem cor. Toda a história dos três sobreviventes da famosa foto do hasteamento da bandeira americana em Iwo Jima é uma continuidade desse tema: a realidade da incompetência humana em evitar a guerra – e a necessidade de criar um sentido depois de consumada.

Com direção precisa e elegante, Eastwood volta a Iwo Jima, uma batalha considerada justa na 2ª Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que os EUA se debatem com Iraque 2 – a missão. A coincidência nem de longe é gratuita, mas o soco na boca vem do absurdo da carnificina, e não da intenção de ser panfletário.

Living With War

Entretanto, “A Conquista” parece, paradoxalmente, um filme pensado para funcionar melhor em seu epicentro norte-americano. Fora de batalha, a bandeira americana existe em excesso mesmo quando não está em cena: nos rostos, falas, eventos.

Quem carrega a foto da bandeira hasteada na memória genética vai se sentir acolhido. Até mesmo o elenco apagado, seja a pedido do diretor ou por falta própria, parece talhado para um filme escrito em ‘americanês’, dialeto difícil de compreender fora de lá. Mas no fato de que os flashes da imprensa americana espocam exatamente como metralhadoras está uma das lições do filme. Daquelas que o fazem ótimo apenas.

Tanta gente reunida, e ninguém consegue escapar.

» leia/escreva comentários (21)