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Diretor neurótico, atriz charmosa

18.03.07

por Daniel Oliveira

Scoop - O grande furo

(Scoop, Reino Unido/EUA, 2006)

Dir.: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Scarlett Johansson, Hugh Jackman, Ian McShane, Romola Garai

Princípio Ativo:
mexidão

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Pense nos grandes almoços com pratos bonitos e deliciosos em quantidades absurdas que acontecem às vezes na sua casa. E admita que é quase impossível resistir, dois dias depois, sem nada melhor na geladeira, a fazer aquele famoso mexidão com os restos daquela festa. Agora imagine que o banquete foi com Scarlett Johansson e ela está disposta a ficar para a janta. “O grande furo” é isso: um revirado com o prato principal de “Match Point” – o crime e o castigo – só que com tempero de farsa (explicitado no barco conduzido pela morte).

Como um bom mexidão, ele funciona quando apresenta um gosto totalmente diferente da refeição que o originou. Nas cenas divididas pela jornalista Sondra Pransky e o mágico Sid Waterman, Johansson e Allen destilam química e ritmo impressionantes – misturando a paranóia dele ao charme dela. Os diálogos são tão ágeis que independem do conteúdo para fazer rir – eles poderiam falar sobre café e cigarros ou sobre o índice Dow Jones e ainda assim seria engraçado.

Isso fica claro na cena do clube em que ele sugere a ela que fingir se afogar na piscina é uma ótima idéia para seduzir um rapaz. Não é. É inverossímil e batido. Mas os dois discutem isso tão rápido que você nem pensa em entrar na conversa e admite a derrota para a química dos dois.

Mas mexido é mexido: quando bate o gosto requentado da comida que um dia já foi, o paladar acusa. Sondra e Sid investigam um nobre londrino (Jackman, ligado no slow do piloto automático), possível serial killer, em uma trama que é um pastiche de “Match Point” – e não se justifica nem pelo tom farsesco do filme. Fica claro que o roteiro é mera desculpa para os duelos do criador e sua musa – e mesmo que ela tenha arrumado um óculos parecido com o dele, Johansson exagera demais em certas falas, mostrando que Allen ainda é imbatível em seus diálogos neuróticos.

Com isso, o filme parece uma série de cenas de sitcom bem dirigidas e que só funcionam quando a dupla está em cena – um caráter episódico e pouco amarrado que a montagem (cheia de fade out’s) não consegue disfarçar. O final é um pedido de desculpas do diretor a Johansson pelo desfecho de sua personagem em “Match point”. Assim como “O grande furo” é a piada para deixar mais leve a visão romantizada e criminalista de Londres do longa anterior.

É o humor de Allen com uma nova musa. E mesmo parecendo um mexidão feito às pressas, “você é um grande orgulho para sua raça” ainda é uma gag que arranca boas risadas e demonstra uma inteligência e um ritmo que falta a 90% das comédias atuais.

Johansson e Allen procuram assuntos para as gags do dia.

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