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O cheiro da fossa

20.07.07

por Daniel Oliveira

Saneamento básico, o filme

(Brasil, 2007)

Dir.: Jorge Furtado
Elenco: Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Paulo José, Bruno Garcia, Lázaro Ramos, Tonico Pereira, Janaína Kremer

Princípio Ativo:
Jorge Furtado

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A fossa sanitária de “Saneamento básico” é uma solução a curto prazo de Jorge Furtado para a bosta do cinema brasileiro. A longo prazo, ele dá um curso intensivo de audiovisual:

Roteiro - 30 min./aula
Básico:
Marina (Torres) escreve o script do vídeo de ficção (ou “de monstro”) necessário para viabilização da fossa esperada há anos pela comunidade de Linha Cristal. Com a ajuda do marido Joaquim (Moura), ela aprende que a protagonista Cilene ‘Seagal’ (Pitanga) não pode achar que a ameaça é só um “bicho inofensivo” - tem que dizer.

Avançado: Ao trabalhar com vários personagens, Furtado recorre à comédia dell’arte, dando profundidade e propósito para cada um, sem cair no erro do sumiço ou surgimento de personagens usados como muleta para o prosseguimento da trama.

Para casa: Assistir a Woody Allen, com atenção ao ritmo e inteligência dos diálogos.

Direção - 30 min./aula
Básico:
Diretor é o cara que dá unidade ao trabalho da equipe. Zico (Ramos) sabe disso e explica aos membros da produção, separadamente, que aquela é sua cena e que ele é a peça mais importante da produção.

Avançado: Apesar dos enquadramentos parados, a dinâmica do elenco e a metalinguagem dos diálogos não deixam “Saneamento básico” ser acusado de teatral. Furtado, confiante nos bons roteiro e elenco, só perde o ritmo no ato final, em cenas arrastadas como a saída de Joaquim durante o lançamento do vídeo.

Para casa: Assistir a “Noite americana” de Truffaut e brincar com ele, como a cena em que Marina explica a Joaquim como funciona a câmera subjetiva.

Atuação para cinema – 20 min./aula
Básico:
Atuar não é usar uma entonação para cima, muito menos dar ênfase à primeira sílaba das palavras, como Fabrício (Garcia) e os pedreiros da obra. Esclarecido isso, e com personagens interessantes, já é um começo.

Avançado: O elenco mostra que, quando atua bem, é bom; mas quando atua mal, é hilário. As gravações do vídeo são as melhores cenas, junto da química entre Fernanda Torres e Wagner Moura (que tornam qualquer texto mais interessante) e da estrela Cilene-Pitanga.

Aula extra – 32 min./aula
Básico:
Se nada der certo, emule Humberto Mauro e use metáforas sexuais freudianas, à la Zico. Acrescente Billie Holiday – qualquer cena com ela na trilha é antológica. E tenha Paulo José no elenco. Paulo José é Deus.

Avançado: Curso de políticas públicas de incentivo. Como ser educativo/regional/experimental/anti-status quo. Aprenda a captar recursos com as ótimas cenas do vinhedo e da Solindezas.

E filme Paulo José andando, no final, sob a chuva, com a obra inacabada. O cinema pode não mudar a merda. Pelo menos a torna mais poética.

“E esse cheiro agora...não foi a fossa não, hein?”

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