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O silêncio dos inocentes

22.07.07

por Mariana Souto

A vida secreta das palavras

(La vida secreta de las palabras, Espanha, 2005)

Dir.: Isabel Coixet
Elenco: Sarah Polley, Tim Robbins, Javier Câmara, Steven Mackintosh, Eddie Marsan, Julie Christie

Princípio Ativo:
silêncio

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De início, a misteriosa narradora fala sobre o também misterioso mundo de Hanna (Sarah Polley), dividindo-o entre palavra e silêncio. Ela é uma imigrante – não se sabe de onde - quase surda, funcionária de uma fábrica. Leva sua vida solitária numa rotina sempre igual, marcada pela trilha ritmada do barulho das máquinas (o que remete a “Dançando no Escuro”). Nas férias, trabalha como enfermeira de Josef (Robbins), paciente com graves queimaduras e cegueira temporária causadas por um acidente numa plataforma de petróleo.

Através da personagem praticamente surda - e de outro praticamente cego -, percebemos o mundo com a intensidade dos sons e do silêncio. A diretora Isabel Coixet pontua cenas e momentos com a boa utilização de efeitos sonoros, mas se valendo também de sua ausência. “A vida secreta das palavras” usa bem o áudio, recurso nem sempre aproveitado no cinema, potencializando ruídos e dando significado poético e melancólico à falta deles. Até o som de um helicóptero nunca foi tão marcante. A vida monótona e silenciosa de Hanna, resultado de traumas passados, ganha forma na tela em grande parte pelos recursos de audição - mas também pelos de visão, através de movimentos de câmera lentos misturados a instantes de tensão com câmera na mão.

“A vida secreta das palavras” possui uma certa “estética do silêncio”, muito observada nos curtas brasileiros que freqüentam os festivais de cinema. Travellings lentos, cenas bucólicas, fades e restrição de diálogos parecem ser mesmo uma tendência. No filme de Isabel Coixet, vários elementos são usados como metáfora e lirismo, como a água, a chuva e o fogo. Hanna, Josef e os outros poucos personagens do filme estão numa plataforma no mar, o que não deixa de ser uma ilha, símbolo de isolamento. Quase todos ali são silenciosos e solitários.

O silêncio de Hanna, mais acentuado que o dos demais, traz o peso de um trauma, do constrangimento pelo que passou, mas Josef também tem lá seus demônios do passado. Nem nos momentos de confidências, porém, eles conseguem falar de suas tragédias pessoais. Pelas conversas, parecem falar de si através de outros, como se a vida já tivesse sido tão sofrida que morreram em determinado ponto. “A vida secreta das palavras” segue um clima íntimo e delicado, mas em parte quebrado na cena com a tutora de Hanna, que dá ao filme um tom político e mais didático do que o necessário.

Apesar de toda a tristeza, solidão e sofrimento, o convívio entre os dois pode fazer surgir de novo a vida, com visões, sabores e sons diferentes - de volta à terra firme.

A febre é o menor dos problemas de Tim Robbins no filme.

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