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O declínio do império

22.07.07

por Rodrigo Ortega

Orquestra Imperial - Carnaval Só Ano Que Vem

(Som Livre, 2007)

Top 3: “Yarusha Djaruba”, “Supermercado do amor”, “Salamaleque”

Princípio Ativo:
Gafieira indie

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Começo a reavaliar a nota 6 que dei para o churrasco de Seu Jorge e Ana Carolina no ano passado. Asinha de frango suja de vinagrete e farofa pode não ser uma comida saborosa, mas enche a barriga, de qualquer forma. Cá estou em um churrasco no salão de festas de um prédio grande e bonito. Há diferenças de forma e conteúdo: a farofa não veio na tupperware, e sim no saco da Yoki, e os copos lagoinha agora têm cerveja importada. Não que isso seja importante. Aqui ou ali, é só um churrasco. Mas uma diferença é fundamental: se eu colocasse uma cópia de camelô de Ana & Jorge no lugar do disco da Orquestra Imperial que está tocando, receberia um puxão de barba ou uma allstarzada na cabeça.

Nem posso dizer que não queria estar aqui, já que alguém pode ter me visto achando doido o show da Orquestra Imperial, big band de 19 músicos cariocas, entre eles Moreno Veloso, Kassin e Rodrigo Amarante (até Seu Jorge já participou). Mas nos meus sorrisos e proto-danças eu pensava mais no clima de bagunça no palco do que em qualquer chance de eles lançarem um disco, esse disco. A marchinha tropicalista "Supermercado do amor" ou Amarante cantando "Iara iarutcha / Iara iarutcha / Iara iarutcha tcha" até que me fazem lembrar do show, mas as outras músicas só me fazem aumentar o som do cover-interno de "Creep" na minha cabeça. Que diabos estou fazendo aqui?

O repertório, todo de composições próprias (ao contrário dos shows), é recheado de ritmos calientes com melodias cool, o que torna o resultado bem morno. “Ela Rebola” indica bem a direção do disco: “Ela rebola pra cá / Ela rebola pra lá / Mas pra mim bola ela não dá”. A Orquestra tenta rebolar e ser blasé ao mesmo tempo. Às vezes eles tomam uma atitude, como pedir “uma aguardente com limão” para levar para a “gafieira”, mas aí só pioram as coisas: a cara de blasé pelo menos era mais autêntica do que a pose de malandro.

O pessoal da Orquestra Imperial pode ser esperto, saber de tudo, mas isso não lhes dá automaticamente o direito de fazer músicas. Enquanto as bandejas vão passando – samba, bolero, pagode, rock – fico tentando saber o motivo da salada. Algum problema, uma tristeza ou alegria que eles queriam servir, além de versos vazios sobre “o mar e o ar”, arremedos de malandragem ou sexualidade politicamente correta. “De um amor em paz” é o copo de H2OH no fim do banquete – suave, cheiroso e cheio de aspartame. A tentativa de definir o amor sobre uma batida sincopada me faz ir embora com uma dúvida: quem precisa de uma nova bossa nova em pleno 2007?

Um Seu Jorge incomoda muita gente / 19 Seus Jorges incomodam, incomodam...

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