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A excêntrica família de todos nós

10.10.07

por Daniel Oliveira

A casa de Alice

(Brasil, 2007)

Dir.: Chico Teixeira
Elenco: Carla Ribas, Berta Zimmel, Zé Carlos Machado, Vinícius Zinn, Ricardo Vilaça, Felipe Massuia, Renata Zhaneta, Luciano Quirino

Princípio Ativo:
inércia

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Oscar Wilde dizia que pais não deviam ser vistos nem ouvidos, única forma de se manter a vida em família. Filhos, irmãos, avós... também podiam estar incluídos na afirmação. A única maneira de suportar sua família é nunca vê-la, ouví-la ou aturá-la. Claro que isso é impossível. Então a gente faz-de-conta: ignora, mente, omite, finge.

Essa ignorância e hipocrisia inertes são os alicerces d’A casa de Alice”. E de qualquer outra família-média. E é o que a câmera contemplativa e mordaz de Chico Teixeira filma na sua estréia em longa de ficção – o dia-a-dia de Alice e seus três filhos: Lucas, o militar mais velho, Edinho e Júnior, estudantes; o marido taxista Lindomar; e a empregada doméstica, também conhecida como sua mãe, Dona Jacira.

Lucas também é michê. Edinho é cleptomaníaco e rouba até a avó. Júnior substitui a ausência do pai com Lucas, com quem mantém uma perturbadora relação mezzo edipiana. Lindomar trai a esposa com Taisinha, colega dos filhos. Alice descobre e inicia um caso com o marido de sua cliente no salão onde trabalha.

Para a saúde da família, todos ignoram ou fingem ignorar o parágrafo acima. D. Jacira, em especial, é retratada por Teixeira como a geração que aprendeu a fazer isso com perfeição e passa por cima de tudo em nome da integridade da ‘casa de Alice’. Mas tudo ali é frágil demais. O diretor filma enquadramentos parados, movendo um pouco a câmera só quando o diálogo pede, como se seus quadros perfeitos fossem desmoronar com o mínimo movimento.

Esse desmoronamento iminente perpassa todo o filme, num suspense que deixa o espectador esperando pelo pior a cada corte. Só que a inércia do porto (in)seguro que os personagens enxergam na casa de Alice deixa o caldo em banho-maria por um bom tempo, numa série de cafés da manhã mal-humorados e jantares ácidos. Teixeira capta essas refeições com um realismo que lembra o Dogma 95, só que sem o desespero de uma desnecessária câmera inquieta. A agonia aqui vem da imobilidade, da falsa calmaria, da tensão contida.

E a tensão explode. Mas o filme sabe que é simplista demais achar que a explosão resolve tudo. Pelo contrário. Nas boas atuações do elenco, com destaque para Carla Ribas e Berta Zemel (Alice e Jacira), vemos uma série de personagens que parecem adolescentes inconseqüentes atrás de sonhos patéticos de fim de novela. E quando eles se dão conta disso, seja no plano final de Alice ou na voz de Jacira com o locutor da rádio, o espectador sabe que a casa de Alice é o refúgio para onde eles voltarão. Uma família perfeita de mentira é melhor que uma solidão vazia de verdade.

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Não fique triste. Sua mãe também sorri assim.

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