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A verdade está lá fora

30.11.07

por Daniel Oliveira

No vale das sombras

(In the valley of Elah, EUA, 2007)

Dir.: Paul Haggis
Elenco: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, Jason Patric, Wes Chatham, Jonathan Tucker

Princípio Ativo:
Tommy Lee Jones

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Ser pai é algo um tanto irracional. Porque você olha para um bebê de seis meses e não há como evitar. Você faz planos. Imagina. Quer coisas para ele. Que nem sempre é o que ele deseja. Daí quando um filho parte antes, o pai sofre. Com os erros que o filho cometeu por causa dele. E com os erros cometidos que ele, como pai, podia (devia) ter evitado. Porque ela esta lá: a culpa. A culpa das coisas não ditas. Nunca esclarecidas. Das conversas deixadas para depois.

É difícil lidar com isso. Especialmente se você é um Hank: ex-militar, conservador, republicano, eleitor do Bush, um tanto chauvinista, patriarcal.

São essas coisas, nunca verbalizadas em “No vale das sombras”, que a atuação de Tommy Lee Jones encampa, elevando o filme acima da média. Basta uma cena, em que ele narra a história do vale de Elá do título original, para que o público veja o pai, tão bom e tão terrível, que o protagonista soube ser. Seu filho desapareceu após voltar da guerra do Iraque - que, até onde sua inteligência permitia, Hank apoiou. Não demora muito e ele descobre que o garoto está morto, encontrado em pedaços próximo à sua base militar.

O que poderia ser um simples filme de investigação atrás dos assassinos, um whodunit, acaba se transformando em um combate. Entre o roteiro e a direção de Paul Haggis, apontando as falhas de Hank. E Lee Jones retratando um homem que, forçado pela verdade, debate-se contra suas próprias crenças – e, ainda assim, com todos os seus erros, não perde a dignidade. A dignidade de um pai no direito de saber o que aconteceu com o filho – qual foi o erro, onde exatamente ele o perdeu.

Haggis não é um diretor refinado. Quando a mãe (Sarandon) é obrigada a dizer adeus ao filho despedaçado, ele sobe a música e dá um zoom novelesco no rosto dela. Mas ele melhorou. A trilha forçosamente emocional não é tão onipresente, especialmente no início sóbrio do longa – o que torna a confirmação da morte, anunciada numa gota de sangue, mais impactante.

E o discurso liberal óbvio na ironia aos noticiários durante todo o filme é mais eficiente na confissão ao fim. Sem lógica. Nem sentido. A história ouvida por Hank soa tão absurda a ele - e a todo o público norte-americano que ele representa - que tudo o que vem depois, com o protagonista montando o quebra-cabeça do momento exato em que perdeu o filho, não deixa de ser um pouco artificial, ainda que bonito.

Porque no cinema, um Tommy Lee Jones pode até encontrar sentido aí. Na realidade, os Hanks não estão preparados para tanto. E o fracasso de bilheteria desse, e de todos os outros filmes sobre o Iraque, são prova disso.

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