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O estado das coisas

01.02.08

por Rodrigo Campanella

Onde os Fracos não têm Vez

(Estados Unidos, 2007)

Dir.: Joel Coen & Ethan Coen
Elenco: Josh Brolin, Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Woody Harrelson, Kelly MacDonald

Princípio Ativo:
gosto de sangue

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o susto

Se você sente que algo em “Onde os Fracos não têm Vez” incomoda, é porque ele funciona. O novo trabalho dos irmãos Coen, autores/diretores, foi lapidado como uma pedra no sapato daquele hábito nosso de embarcar nos filmes pela emoção. É um filme gelado mesmo na tensão, preocupação zero em espremer lágrimas ou suspiros. A coleira do cinemão americano, que depende da simpatia de quem assiste, é deixada na porta. Tiro certo para um susto no público – qualquer público.

“Onde os fracos...” passa dentro do cinema como uma bola de demolição produzindo caquinhos: da vida de todos os envolvidos com uma mala de drug money, dos mitos do cinema de bandido-mocinho ou da própria noção – edulcorada – do que nós vemos em um filme de tiroteio. O que ele mostra, sem confete, é um bando de gente atirando para matar, seja por grana ou necessidade profissional.

a maldição

A demolição dessa imagem do “bravo oeste” de mentirinha é apontada como um traços de Cormac McCarthy, que lançou em 2003 “No Country for Old Men”, livro que deu filme. Mas o toque, em película, é puro Coen. Parece que os irmãos Ethan e Joel esperaram essa história ser escrita para fazer o seu bangue-bangue possível, com o Texas figurando no fundo.

Começa quando um caipira alguma coisa esperto (Brolin) encontra uma mala de dólares e decide que ela é algo bom para se ter em casa. No rastro vem Anton Chigurh (Bardem), assassino com carteirinha do manicômio. Chigurh, usando como arma uma pistola de pressão e definindo suas vítimas no cara-e-coroa, poderia estar no portfólio do Batman ou em um filme de assombração.

o monstro

Fechando o triângulo está Ed Tom Bell (Jones), xerife acomodado e descrente que possa fazer alguma diferença nesse tempo que tem a crueldade como hobby e o dinheiro como ansiedade principal – e, por isso, não faz nada. Juntos, Ed Tom e Chigurh formam algo simples e indigesto: um John Wayne partido em duas cabeças. Aquele Wayne dos filmes de John Ford, icônico, sombrio, quase caricatural, que confirmou a “conquista do oeste” como expressão de bravura.

Só que esse é um retrato em duas partes, onde uma cabeça não anula a outra, e elas aparecem mais explícitas. O que a tela exibe é bravura, sem ação; honradez; sem moral; saudosismo cego ao lado de crueldade a rodo. Ed Tom e Chigurh são fantasmagóricos. E não dá para saber se é do mundo de hoje ou do oeste histórico que os Coen estão falando nesse espelho estilhaçado, solar e árido, muitas vezes mudo, que dá a sensação pesada de areia enchendo a boca e os olhos.


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Sugar

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