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Coragem, cão covarde...

02.04.08

por Igor Costoli

XXY

(XXY, Argentina, 2007)

Dir.: Lucía Puenzo
Elenco: Ricardo Darín, Valeria Bertucelli, Germán Palácios, Carolina Pelleritti, Martin Piroyansky, Inés Efron, Guillermo Angelelli

Princípio Ativo:
Castellano

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Os argentinos são chamados de “marrentos” porque é algo que faz parte de sua história. Já peitaram a Inglaterra por causa de umas ilhas, jogam torturadores da ditadura na cadeia, disputam o Clausura, expulsam presidentes com panelaços, etc. Então, a forma mais saudável de encarar XXY é vê-lo como uma provocação ao cinema brasileiro.

XX
Alex nasceu com uma anomalia (a trissomia 47, síndrome de Klinefelter) que lhe conferiu dois órgãos sexuais. Tentando proteger a criança, seus pais deixaram Buenos Aires e partiram para um pequeno vilarejo praiano no Uruguai, onde acreditavam que o segredo de sua filha estaria protegido. Quando Alex (nome propositalmente unissex) está com 15 anos, eles recebem a visita de um casal de amigos, que traz seu filho adolescente, o tímido Alvaro, de 16.

XXY
Este impasse é meio filme: a relação entre os jovens explode, mas os adultos estão “debatendo o sexo dos anjos” enquanto os dois ficam perdidos. A tensão sempre sobe no momento em que se formam duplas, é quando a sensação de que “algo vai dar muito errado” impera em cena. A fotografia de Natasha Braier aparece negativamente quando brinca de jogar sombras e luz, sendo mais bela ao mostrar o vazio ao redor.

XY
Chauvinismo à parte, é preciso ser macho pra rodar uma história dessas, e isso a diretora Lucía Puenzo é muito. Ela assina também o roteiro, inspirado no conto Cinismo, de seu marido, Sergio Bizzio. E se às vezes deixa várias personagens apenas existindo, seu trabalho com o trio de protagonistas é que confere o peso que a história exige.

Inés Efron consegue mostrar todas as faces de uma misteriosa, agressiva, confusa Alex, que tem em Alvaro (Piroyansky) seu maior aliado. Darín (o Selton Mello porteño) completa o time, servindo de porto seguro para Inês, tanto quanto o pai o é para Alex.

Aos três some-se o crescimento de Ramiro (Palacios), pai de Álvaro, durante a trama. Fisicamente, o médico é a presença da confrontação a que Alex será submetida. Ele está ali, incômodo, a lembrar Kraken que, em algum momento, a bolha criada em torno de Alex irá estourar.

X
Não bastasse ser um mercado ainda limitado e uma indústria que engatinha, o cinema brasileiro reflete sua sociedade, onde mesmo a vanguarda é reacionária. XXY deve ser visto como um convite à coragem. Não é a invenção da roda, mas é um filme belo, bem feito, que levou o prêmio da semana da crítica, em Cannes, e o Goya, de filme estrangeiro na Espanha. O ponto é que é mais ousado que quase tudo feito na retomada brasileira. Mentalmente, estamos bem atrasados.

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