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O pesadelo de Cassandra

03.06.08

por Daniel Oliveira

Antes que o diabo saiba que você está morto

(B4 the devil knows you’re dead, EUA/UK, 2007)

Dir.: Sidney Lumet
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney. Marisa Tomei, Rosemary Harris

Princípio Ativo:
tragédia grega

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Ao sair da sessão de “Antes que o diabo saiba que você está morto”, eu estava sem palavras. E ao sentar em frente ao computador agora, percebo que continuo sem elas. “Antes que o diabo...” é um filme que não se explica com palavras. É uma experiência que pode trazer milhares de sentimentos diferentes para espectadores diferentes.

A sinopse seria mais ou menos essa:

1- Os irmãos Andy (Hoffman) e Hank (Hawke) decidem assaltar a joalheria dos pais para resolver seus problemas financeiros, mas são obrigados a lidar com as conseqüências do fracasso da empreitada.

Mas talvez a opção abaixo seria mais adequada:

2- Gente com caráter, ganância e problemas de gente toma uma decisão e comete erros típicos de gente e reluta em assumir a culpa por ferir os outros, numa atitude típica de...gente.

Porque o filme de Sidney Lumet é uma história de pessoas comuns. E seria, ao mesmo tempo, muito mais racional e cheio de bons sentimentos, se fosse sobre cachorros. Cachorros são muito melhores que gente.

O espectador passa quase duas horas de filme aguardando uma reviravolta mirabolante, a revelação da ‘agenda secreta’ de algum personagem – típicos de um filme de roubo – e não há. Andy e Hank são atropelados pelos desdobramentos de seus erros, que vão os cercando como duas paredes em direção uma à outra. Nenhuma solução fácil se apresenta no roteiro do estreante Kelly Masterson, o que cria uma inércia tóxica e asfixiante. A câmera de Lumet sufoca (assim como a sala do júri de “Doze homens e uma sentença”) os personagens com longos planos-seqüência que nunca os abandonam, assim como a culpa.

Enquanto Hank (um ‘frouxo’) se entrega ao desespero e à depressão, Andy aparenta uma calma fria e monstruosamente isenta de remorso, com a ajuda de drogas. A única cena em que ele parece encarar a gravidade do que fez é no carro, após uma conversa com o pai (Finney), em que os dois discutem a perda de um ente querido e 40 anos de ressentimento como quem resolve o que comprar no açougue.

O fato de Lumet ter Philip Seymour Hoffman como Andy torna a delicada desconstrução do monstro bem mais fácil. Mas é o cineasta, com a ajuda de um bom roteiro, que transforma um dos maiores clichês do cinema (o filme de roubo) em uma tragédia grega, em que as ações e os equívocos dos personagens são respostas às expectativas daquela que nos conforma e nos persegue: a família.

É na relação dos irmãos, no (des)equilíbrio dinâmico entre o ‘cérebro’ e o ‘bonitinho’, e em como o pai catalisa isso tudo que Sidney Lumet alicerça sua tragédia. Porque o diabo se aproveita, mas quem aperta o gatilho somos sempre nós.

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