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Doentes, sim. Família, não.

10.07.08

por Priscila Kallfelz

A família Savage

(The Savages, EUA, 2007)

Dir.: Tamara Jenkins
Elenco: Laura Linney, Philip Seymour Hoffman, Philip Bosco, Peter Friedman, David Zayas, Gbenga Akinnagbe, Cara Seymour

Princípio Ativo:
família, interrompida

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Wendy (Laura Linney) é dramaturga do East Village e eterna trabalhadora temporária. John (Philip Seymour Hoffman) é autor de livros e professor universitário. Eles moram em cidades diferentes, têm opiniões quase antagônicas sobre a vida, mas têm uma coisa em comum: um pai doente, Lenny (Philip Bosco), que acabou de perder a namorada e a casa onde morava com ela.

Forçados pela situação a saírem de suas existências medíocres, os três se reúnem novamente. E o encontro destaca três elementos básicos: a realidade em que estão inseridos versus a falta de perspectiva diante da vida com o avançar dos anos; o conflito constante entre o rancor em relação a um pai dominador e a consciência de que eles são os únicos que podem ajudá-lo agora; e, por fim, as dificuldades básicas de relacionamento entre os membros da família Silverman, ligados única e exclusivamente pelo sangue. Eu disse Silverman? Perdão. Savage. Mas poderia ser Silva, Pereira, Rodrigues...

O que fazer com uma pessoa que já não pode fazer mais nada é a pergunta que norteia o longa. Wendy, mais emotiva, dominada por um sentimento de perda antecipada, ou saudades do que nunca teve - um pai amoroso - tenta respondê-la buscando o melhor asilo para instalar o pai. Na busca, vale até mascarar a demência do velho para conseguir uma vaga. John, mais pragmático, trata da situação com certa frieza, por não saber bem como lidar com ela.

Após o estranhamento e distância iniciais, o casal de irmãos retoma um pouco da intimidade e companheirismo da juventude. Frustrados profissionalmente e despreparados emocionalmente, ambos escutam um do outro críticas sobre seus modos de viverem a vida. Ele acaba de permitir que seu relacionamento de três anos chegue ao fim devido a um visto expirado. Ela, envolvida com um cara casado, espera dele algo que não vai receber. Confrontados um pelo outro, a verdade vem à tona pela boca do próprio John: Até quando a preocupação com a condição de saúde do pai vai mascarar o fato de estarem todos doentes?

Longe de mudar nossas vidas e muito próximo do que seria uma produção insípida, “A Família Savage” não emociona, não faz rir nem chorar. Não tem uma trilha sonora que se destaque ou fotografia que valha as duas horas passadas no cinema. A trama, intencionalmente ou não, é como seus personagens: falta-lhe graça. Falta-lhe vida. A situação do pai, razão inicial do encontro da família, revela, por fim, o quarto e mais óbvio elemento da trama: estamos todos morrendo, afinal. E nada vai mudar isso. O que faz a diferença é o que realizamos antes disso acontecer.

Mais pílulas:
- A casa de Alice
- Viagem à Darjeeling
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...Era pra ser engraçado?

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