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Baseado numa adaptação real

04.10.08

por Daniel Oliveira

Sinédoque, Nova Iorque

(Synecdoche, New York, EUA, 2008)

Dir.: Charlie Kaufman
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Samantha Morton, Catherine Keener, Michelle Williams, Hope Davis, Emily Watson, Dianne Weist, Tom Noonan

Princípio Ativo:
CHARLIE KAUFMAN, sem limites

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Após desilusão amorosa, homem tenta encontrar sentido na vida ao repassar seus principais acontecimentos, até o ponto em que é impossível distinguir o que é ‘realidade’ e o que é pura percepção dele.

Qualquer semelhança com isso aqui não é mera coincidência. Todo grande autor cinematográfico está sempre contando a mesma história e, em “Sinédoque, Nova Iorque”, Charlie Kaufman prova isso ao retomar a estrutura do romance de Joel e Clementine (e, em certa medida, de “Adaptação”) para realizar um filme bastante diferente.

Assumindo também a direção, Kaufman entra desta vez na mente do diretor de teatro Caden Cotard, cuja esposa Adele viaja a trabalho, leva a filha e nunca mais volta. Sem nunca aceitar o abandono, ele decide seguir um conselho da ex-mulher e “fazer um trabalho mais pessoal”, encenando sua vida num galpão em Nova Iorque.

Mas esse é um filme de Charlie Kaufman. Nem sonhe que a história é tão simples quanto pode parecer. “Sinédoque” cobre mais de 20 anos da vida de Caden, com a peça recebendo novos títulos (o sentido) a cada acontecimento que ele acredita ‘resumir’ sua existência (daí a sinédoque). Isso faz com que quase todos, especialmente as mulheres, que habitam a vida de Caden tenham um duplo na peça, chegando ao ponto em que alguém do filme pergunta e é respondido por outrem da peça.

É insano e, com o passar do tempo, mentalmente exaustivo. Falta à direção de Kaufman um limite para a falta de limites de sua mente iluminada. Mas sobra beleza em seu roteiro, recheado de piadas inesperadas, metalinguagem e metáforas loucas e belas, como a mulher que escolhe sua morte ao comprar uma casa em constante incêndio (!). Há ainda uma brincadeira metalingüística com as obras biográficas, que forjam sentido numa vida que muitas vezes não o teve. Especialmente o ator que interpreta Caden na peça, dizendo e fazendo coisas que o próprio não teve coragem.

Mas por trás dessas loucuras, estão as mais cruas emoções humanas. O teatro megalômano de Caden é simplesmente um homem tentando ‘refazer’ sua vida. O fato de sua filha e Adele serem as únicas ‘personagens’ que ele não ‘simula’ na peça diz muito da fuga que ela representa.

Philip Seymour Hoffman, em (mais) uma atuação impecável, encarna física e psicologicamente a decrepitude desse homem se desfazendo após perder a família. Se em “Brilho eterno”, o cenário desabava com o fim de um relacionamento, aqui é o próprio corpo de Caden que somatiza a desintegração de sua personalidade com perebas e doenças.

E as palavras e a forma como Kaufman costura isso tudo nos minutos finais é de uma metalinguagem e uma poesia tão sublimes que redimem toda a enxaqueca de quem chegou até ali.

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Hazal, Hazal, Caden e Caden.

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