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Amy at the wedding

05.10.08

por Daniel Oliveira

O casamento de Rachel

(Rachel getting married, EUA, 2008)

Dir.: Jonathan Demme
Elenco: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin, Debra Winger, Mather Zickel, Tunde Adebimpe, Anisa George, Anna Deavere Smith

Princípio Ativo:
Hathaway & Demme

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Sabe quando alguém na sua casa/família vai casar e o lugar vira um circo de loucos, todo mundo fica super afetado e emocional e prestativo e feliz pela pessoa? E você fica com aquela cara de bosta e preguiça, fazendo comentariozinhos sarcásticos?

Bem, você é um babaca. Sinto, mas é. É o dia da pessoa, ela está feliz, quer seu apoio e sua pose cínica é tão cool quanto egoísta.

Kym, a protagonista de “O casamento de Rachel”, não é só babaca – é egocêntrica, sem limites, acabou de sair da rehab e não enxerga nada que não seu umbigo. A Rachel do título (a ótima Rosemarie DeWitt) é sua irmã e, apesar de sair da clínica para o casamento dela, Kym parece não entender porque sua recuperação das drogas não é o centro das atenções.

Que, ainda assim, venhamos a sentir compaixão por ela é mérito de duas pessoas. A primeira é Anne Hathaway (pré-assinando seu nome nas indicadas ao Oscar de melhor atriz do ano que vem), que interpreta Kym com uma empatia que a humaniza, ao mesmo tempo em que seus defeitos e sua língua ferina a tornam uma bomba-relógio prestes a explodir em cada cena. Seu brinde no jantar de ensaio é de encolher na poltrona de vergonha.

O segundo é o diretor Jonathan Demme (O silêncio dos inocentes). Ele atinge uma naturalidade tal no comando de seu elenco e na operação da câmera, que parece estarmos realmente assistindo a um vídeo de casamento. Sua fotografia inquieta procura por Kym e pulsa com a mesma ansiedade dela, do público – e dos cinegrafistas de casamento. Some ainda a onipresença da música, reminiscência do quão insuportáveis esses vídeos são. Toda a trilha de “O casamento de Rachel” é tocada fora de cena pelos músicos da cerimônia ensaiando ininterruptamente – o que gera um comentário metalingüístico ótimo quando, em uma tensa discussão em família, Rachel pergunta se eles não podem dar um tempo.

Demme traz o tino musical da sua longa experiência com vídeos para bandas (o mais famoso deles sendo “Stop making sense”, do Talking heads). Esse organicismo imagem-áudio culmina no ato final, durante a festa - um espetáculo multicultural, que serve tanto de discurso político sutil quanto de tortura interminável para a protagonista. É o único momento em que Kym pára de falar e agir e destruir. Enquanto a animação da festa estoura os tímpanos do público, Hathaway passa longos minutos em total silêncio – e seu rosto desolado diz tudo.

Kym quer que todos olhem para ela e gostem dela e falem dela, mas o casamento é de Rachel. É Rachel quem está construindo uma vida, enquanto Kym só se afunda mais no buraco. E essa é pra você, Amy, tá lendo? Até lama tem limite.

Mais pílulas:
- Depois do casamento
- Sideways - entre umas e outras
- Em seu lugar
- ou Navegue por todas as críticas do Pílula

Essa vai direto para o álbum.

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