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Ritchie Beggins

por Braulio Lorentz e Guilherme Miquelutti

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A banda Let’s Presley foi convidada para tocar na festa de aniversário do Vinnil Cultura Bar, no dia 18 de outubro. Com Ricardo Koctus em sua formação, aquele do Pato Fu, o Let’s Presley convidou outros nomes bacanas para a festa. Bruno Gouveia, aquele do Biquíni Cavadão, Maurinho, aquele do Tianastácia, Edgar, aquele da MTV, aceitaram o convite.

Ritchie, aquele da “Menina Veneno”, também compareceu. Surgiu então a idéia de recapitular a trajetória de Ritchie desde os tempos em que cantar em inglês, em vez de em português, era uma obrigação, não uma opção.

Se “2 filhos de Francisco” conta tudo até Zezé e Luciano lançarem “É o Amor” e Batman Beggins narra as primeiras lutas do homem morcego, este texto conta o que aconteceu com Ritchie antes do estouro com “Menina Veneno”.


Um dos olhares mais famosos, junto com o 43

Pílula Pop: A primeira banda que você teve quando veio para o Brasil foi o Scaladácida?

Ritchie: Essa banda eu montei em São Paulo.

Pílula Pop: Não teve gravação?

Ritchie: Olha, não. Porque eu era turista e a gente foi até sondado pela gravadora Continental para assinar um contrato, mas eu tive problemas com visto. Tentaram viabilizar minha permanência ou qualquer coisa que permitisse que assinasse o contrato, mas infelizmente, não chegou a tempo. Daí brigamos... Tem duas coisas que acabam com as bandas: o sucesso e o fracasso. No nosso caso foi a frustração de não poder assinar.

Pílula Pop: E como foi a trajetória da banda antes do fim?

Ritchie: No final de 72 a gente ensaiou e entre 73 e 74 fizemos bastante show. Nessa época não tinha lugar pra tocar em São Paulo, então era nos teatros mesmo. O nosso show de estréia foi no Masp, Museu de Arte Moderna de São Paulo. A gente tinha o mesmo problema no começo dos anos 70. Não havia circuito de rock, éramos meio subversivos, cabeludos e considerados representantes de um gênero musical que, fora mutantes e algumas poucas bandas, não tinha um circuito. As gravadoras não confiavam muito no repertório, mas havia público. Era muito difícil, era por amor à arte mesmo. Mas os shows eram muito freqüentados. Era tão pouca a oferta que qualquer show em qualquer canto sempre lotava.

Pílula Pop: Nenhuma dessas apresentações foi gravada?

Ritchie: Do Scaladácida eu sei que existem gravações porque eu encontrei com o Fábio Gasparini, que era o guitarrista da banda e também é conhecido como Ted Gaz, que era do Magazine nos anos 80, e ele me disse que tem gravação da Scaladácida. Mas não sei, provavelmente foi gravada nesse show no Masp. Eu nunca ouvi e já esqueci todas as músicas. Não me lembro de nada.


Ritchie posa para foto e olha o horizonte

Pílula Pop: Eram apenas músicas próprias?

Ritchie: Sim, músicas próprias em inglês, porque eu não falava português. Eu cheguei em 72 e três meses depois já estava fazendo shows.

Pílula Pop: E como era o som da banda?

Ritchie: Era uma mistura com muito de King Crimson. Tinha muita influência da música progressiva, que era o que a gente ouvia muito. Mas é um gênero musical que não me desperta tanta atenção. Então hoje eu sou menos influenciado por isso. Mas na época a gente ouvia direto. Tinha muita influência da música progressiva e instrumental, basicamente um som inglês. Foi uma maneira de me apresentar ao público, mas era muito artesanal ainda. Era uma boa banda, com muito ensaio. O Scaladácida acabou em 74, quando eu fui morar no Rio. Na verdade eu entrei no Soma primeiro e depois no A Barca do Sol.

Pílula Pop: E quanto tempo você ficou no A Barca do Sol?

Ritchie: Na Barca do Sol eu fiquei um ano, entre o primeiro e o segundo disco. Não cheguei a gravar. Eu pedi pra cantar na banda e fui expulso. (Risos) É porque na verdade não tinha nada a ver um gringo cantar numa banda que tinha uma proposta MPB. No dia que eu saí da banda e fui pra casa todo deprimido, duas horas depois... (Ritchie bate na mesa) bateram na porta. Era o Lulu Santos e o Luís Paulo Simas, tecladista do Vímana. Daí o Lulu com seu jeito todo delicado falou: A gente tava esperando você sair dessa merda pra chamar você pra cantar com a gente. Eu fiquei muito feliz de ser chamado como cantor, porque eles haviam visto nosso único show no Rio de Janeiro no Scaladácida, dois anos antes. Porque naquela época o show era um ponto de encontro, não tinha escolha, era obrigatório. As pessoas eram atraídas por qualquer manifestação roqueira. Então ele viu o show, ficou muito impressionado com o Scaladácida e esperou esse tempo todo para quando eu saísse da barca do sol.

Pílula Pop: Das bandas do começo de sua carreira, o Vímana é a que tem mais registro?

Ritchie: Sim. A gente chegou a gravar um disco, embora não foi lançado. Quer dizer, foi lançado um compacto. Mas nenhuma música muito boa ou muito representativa daquilo que a gente fazia. Porque a gravadora Som Livre na época garimpava no nosso som uma coisa que pensavam ser mais radiofônica. E na verdade a gente não tinha aquilo. Tivemos que adequar nosso som ao formato de compacto.

Pílula Pop: Na Internet a gente encontra uma espécie de coletânea do Vímana que chama Vímana on the rocks...

Ritchie: “On the rocks” é uma música minha.

Pílula Pop: E nessa coletânea tem algumas músicas ao vivo gravadas no Museu de Arte Moderna em 77...

Ritchie: Interessante, isso eu não sabia...

Pílula Pop: E tem algumas participações. Toda a banda que participou desse projeto?

Ritchie: Não, eu não participei disso. O Vímana existia antes, era a banda do Lulu Santos. Era uma banda instrumental, o Lulu passou a cantar pouco antes de eu entrar. Quando entrei, assumi a tarefa de cantar, e ainda tocava flauta, percussão e tal. O Lulu passou mais a se concentrar na guitarra e cantava umas duas músicas do show e fazia os backing vocals. Essa coisa que eles fizeram com a Luiza Maria... Eu conheço a Luiza...

Pílula Pop: Qual é o paradeiro da Luiza Maria?

Ritchie: Não sei dizer. Ela lançou um disco chamado Aranha, ou Mulher Aranha...

Pílula Pop: O disco da Luiza Maria? Acho que chama Queria Ser Anjo.

Ritchie: Sim. Mas tem um outro. Mas que eu saiba eu não participei da gravação com ela ou eu não me lembro dessa gravação. (Risos)

Pílula Pop: Então o Vimana On The Rocks não é uma coletânea oficial, isso nunca foi lançado?

Ritchie: “On the rocks” é uma música que eu escrevi pro Vímana, eu não sei do que se trata esse disco.

Pílula Pop: Inclusive essa música faz parte da coletânea...

Ritchie: Foi uma que a gente gravou no estúdio, essa e mais umas sete ou oito faixas, se não me engano, que seriam o nosso primeiro LP. Mas a Som Livre ouviu aquilo e já estavam nos dizendo que o público brasileiro não estava pronto para o rock, ou algo parecido. Ou que Brasil jamais estaria pronto para ouvir o Rock. Enfim.


A banda Vímana sentadinha

Pílula Pop: Vocês estavam no começo da explosão do rock no Brasil, que veio na década de 80...

Ritchie: Na década de 70 o público era restrito, mas muito fiel. E muita gente que surgiu nos anos 80 eram os mesmos rostos que a gente via do palco naquela época. A ponte entre São Paulo e Rio era complicada por causa do equipamento. E cada teclado tinha que ser programado entre cada música. Pra viajar a gente não tinha empresário... A minha mulher fazia a iluminação. Era uma coisa improvisada, como muitas bandas fazem até hoje. Mas hoje em dia você tem um alvo, gravadoras independentes, lugares para ir. Naquela época não tinha um circuito de rock.

Pílula Pop: Sucintamente, o que foi a banda Vímana?

Ritchie: Vímana é uma banda antes de seu tempo em todos os sentidos, não só uma banda precursora. Foi a nossa escola. Se a gente ouve hoje é um prato cheio pra crítica. O som é datado e tudo mais. Mas na época foi o nosso pré-escolar, foi onde aprendemos a tocar. Era quase uma religião pra gente. E tocar junto foi aprender a lidar com o palco muito cedo e a definir nossas próprias personas. Então, quando o Vímana acabou foi um momento triste para todos nós. Mas cada um tinha definido muito bem o que queria fazer.

Pílula Pop: E como você define o caminho de cada um?

Ritchie: O Lobão foi fazer a carreira dele, o Lulu foi fazer a carreira dele, e eu fui fazer a minha. A gente dentro do Vímana pôde definir muito bem o que cada um queria. E realmente eram caminhos um pouco diferentes. O Lobão queria uma coisa mais ligada ao punk. O Lulu queria buscar uma coisa mais Stevie Wonder, canções de 3 minutos e meio. E eu ainda ficava um pouquinho na mistura dos gêneros e gostava de coisas mais complexas. Os nossos desejos começaram a transbordar, não cabiam dentro do Vímana.

Pílula Pop: E sobre o significado da palavra Vímana?

Ritchie: É uma palavra em sânscrito. Quer dizer “carruagens dos Deuses”. Ou alguma coisa assim. Hoje em dia, fala-se em disco voador e tudo mais. Mas no sânscrito acho que era uma carruagem puxada por cisnes e trazia os Deuses da Terra. Muita pretensão nossa, mas era uma história bonita pra se contar. E naquela época tinha essas metáforas mais elaboradas e pretensiosas mesmo. Todo mundo era um pouco mais pretensioso. Até a gente redescobrir a “canção” e perceber que era ali que a gente tinha que ir.

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