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Desmontando o cinema

por Rodrigo Campanella

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Sentado na minha frente, Kleber Mendonça Filho é mais calmo e sereno no jeito de falar do que suas críticas no site Cinemascópio dão a impressão de que ele possa ser. Mas por trás do óculos Rayban de grau, aro preto, os olhos dele não descansam: procuram a atenção do entrevistador, circulam ao redor do ambiente, faíscam todo o tempo.

Recifense, Kleber arquiva no Cinemascópio toda sua produção como crítico e repórter para o Jornal do Commercio, onde trabalha há dez anos. Lá estão os textos integrais, sem os cortes da edição impressa. Cinéfilo apaixonado, dirigiu vídeos nos anos 90 e, nos últimos cinco anos, voltou à direção com curtas que abocanharam prêmios e boas críticas – “A Menina do Algodão” (2002), “Vinil Verde”(04), “Eletrodoméstica” (05) e “Noite de sexta, manhã de sábado” (07). Atualmente finaliza o documentário em longa-metragem “Crítico”, em torno da relação entre cineastas e a crítica de cinema.

É sobre crítica, o estado atual do cinema e sua carreira como jornalista, crítico e programador que ele fala abaixo. No final dessa entrevista, feita no Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, ele comentava que “nem foi bem entrevista, foi um bate-papo”. É o que esse texto pretende ser, também.

Pílula Pop: Alguma coisa mudou nas suas críticas após você virar cineasta?

Kleber Mendonça Filho: Não, porque são coisas diferentes. Se eu tenho uma bicicleta e compro um Uno, não vou mudar meu jeito de andar de bicicleta por isso.

Pílula Pop: E como você vê essa crítica que surge hoje na internet?

Kleber Mendonça Filho: Ela é muito interessante, porque não é qualquer filme que faz você ir pra casa, escrever e colocar num blog. Se a pessoa escreve é porque houve um impacto. Isso talvez explique uma certa reação positiva aos meus filmes - a maior parte dos textos surge espontaneamente. Quando você faz um longa, entra em um sistema onde a crítica escreve por obrigação, e talvez comece a haver textos equivocados ou que você considera equivocados ou preguiçosos, que não entendem o que você tentou falar.

Eu escrevo profissionalmente pra um jornal e vejo filmes dos quais não tenho nada para dizer, mas preciso escrever. Num dia bom, sai um texto interessante. E essa é uma das questões mais difíceis na crítica: você tem que ser interessante o tempo todo, mas ninguém é assim.


Kleber Mendonça

Pílula Pop: E, para você, qual é o papel do crítico?

Kleber Mendonça Filho: Eu acho que um bom filme, ou a arte em geral, funciona como uma representação artística da vida, da sociedade, do ser humano. Os filmes têm o valor que eles trazem embutido neles de reflexo. Em 1977 a Nasa mandou uma sonda pros confins do espaço que tinha ao lado várias telas passando em looping imagens da Terra. A idéia era mostrar pra seres alienígenas ou outras civilizações como seria aqui. Às vezes eu penso: se esse filme fosse mandado naquela sonda, ele representaria o ser humano e a sociedade humana de uma maneira correta? Ou seria uma imagem caricata, falsa e imbecil?

O crítico apresenta uma apreciação do que ele viu baseada na informação que ele carrega, principalmente a bagagem pessoal. A crítica é uma leitura pessoal, que fique claro que ela não é verdade absoluta, nem pretende ser. .

E o tráfego como jornalista nesse meio é algo difícil. “A Doce Vida” é um filme que eu acho particularmente forte dentro do que eu faço. É preciso ter muita consciência de que você é apenas uma peça, você não é amigo de ninguém. Você está num iate em Cannes, com a Mônica Bellucci ao lado, mas é meio por acidente. E tudo isso monta uma compreensão que faz você escrever sobre um filme de uma maneira muito pessoal.

Pílula Pop: Eu entendo que a crítica é também um guia de consumo cultural. Mas você é contra isso.

Kleber Mendonça Filho: Uma das piores coisas que alguém pode me dizer é “que bom que eu li a sua crítica e economizei dezesseis reais”. Se eu não gostei do filme, outras pessoas podem gostar. Acho que uma bela crítica consegue fazer um poema sobre aquele filme e despertar o desejo de assistir.

Pílula Pop: Como é o trabalho que você faz programando os filmes do cinema da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife?

Kleber Mendonça Filho: Na Fundação eu trago os filmes que eu vi nos festivais, que eu vi antes de estrearem no Brasil, e pelos quais me apaixonei. Filmes que nem teriam lugar em Recife, uma cidade onde os filmes são programados a quilo, arremessados. E o Cinema da Fundação desenvolveu, por isso, um carinho enorme do público cinéfilo. São filmes europeus, de arquivo, cinemateca. Recebo como funcionário público, nem tem como ganhar com bilheteria. E também escrevo no jornal (do Commercio) a crítica desses filmes, que são estréias da semana.

Pílula Pop: Você acha que o público em geral desaprendeu o que é cinema?

Kleber Mendonça Filho: Eu acho que nunca o mundo esteve tão capaz de decodificar imagens. Hoje, qualquer um na classe média tem câmera, o que não significa que o cara tem domínio de linguagem pra fazer um filme. Acho que a imagem ficou vulgarizada.

Pílula Pop: E em relação a ir ao cinema?

Kleber Mendonça Filho: O ritual está cada vez mais desgastado. Mas ao mesmo tempo Hollywood vai fechar esse ano com um recorde histórico de arrecadação de dinheiro...

Pílula Pop: ...numa seqüência histórica de blockbusters.

Kleber Mendonça Filho: É, cronometrada pra entrar no momento certo. A experiência cinematográfica está completamente achatada. Tive que convencer a Fundação que a gente devia gastar quatro mil reais numa cortina. Eles perguntavam o porquê e eu dizia que a cortina faz parte da experiência cinematográfica. E eles, “mas nenhum cinema hoje tem cortina”. Só que eles já tiveram cortina. E hoje a Fundação tem uma cortina. A sessão vai começar, a cortina abre e o filme entra.

Pílula Pop: Eu sinto muita falta das imagens do filme junto do cartaz.

Kleber Mendonça Filho: Sim, eu também pensei nisso outro dia. Só que hoje é o padrão multiplex, né.

Pílula Pop: Na última revista Bizz, li uma crítica bacana sobre os subgêneros do heavy metal....

Kleber Mendonça Filho: (interrompendo)...gênero, isso é péssimo.

Pílula Pop: ...mas tem uma forma bacana na crítica de música, em que eles não trabalham os gêneros numa forma pequena. Eles criam bilhões de gêneros para condensar pequenos conceitos.

Kleber Mendonça Filho: Um dos problemas da crítica é criar caixas e gavetas. Fulaninho entra aqui, esse entra lá. Aconteceu com o Hitchcock, visto como um macaquinho de filmes para dar medo, até que a crítica francesa disse ‘os filmes dele são muito mais do que isso’. Mas nos anos 50 ele era colocado numa caixa.

Pílula Pop: Mas para um público que não é cinéfilo, os gêneros não podem ser uma entrada, se não forem simplistas?

Kleber Mendonça Filho: Se o filme é simples, ele entra no rótulo. “Trinity vai ao inferno” é um bangue-bangue. Mas eu estou interessado em filmes que subvertem a idéia do gênero. O rótulo eu aceito, mas deve colar e começar a cair. Tem uma tendência atual pra filmes assim, que desafiam uma pré-concepção. Cabe ao crítico se sentir meio burro. Sempre lembro de pessoas bi ou homossexuais em relação a rótulos. “Fulano é homem, necessariamente deve gostar de mulher”. Não necessariamente.

Pílula Pop: Sobre os seus curtas, a ordem em que eles foram feitos tem a ver com grana disponível, oportunidade, ou eles amadureceram até caírem da árvore?

Kleber Mendonça Filho: Tudo isso junto. O “Noite de sexta, manhã de sábado” eu editei durante um mês em 2003, logo após filmar a parte do Recife. Daí ele ficou parado um ano, apaguei tudo e comecei do zero entre 2004 e 2006. Foram dois anos montando, meu filme mais difícil de montar até hoje. Cada imagem tinha que ter uma continuação na outra pessoa, e a outra pessoa tinha sido filmada três meses antes, em outro país. Era uma pesquisa de olhares e expressões, entre todo o material filmado. Pra chegar a um acordo entre os pedaços – o segredo da montagem – foi muito complicado.

Pílula Pop: Ao longo da carreira montar vai ficando mais difícil?

Kleber Mendonça Filho: O meu maior medo é fechar um filme antes da hora. Eu tenho que ter certeza que aquele filme vai continuar bom daqui uma semana e daqui um mês. Não edito todo dia. O filme fica lá e de repente estou tomando banho, dirigindo, e penso em onde a imagem pode entrar.

Nos meus quatro filmes lançados até agora, eu tinha o filme já pronto na cabeça e tive a sorte de fazer uma cópia exata dele, em termos práticos. No meu novo filme, que chama “Recife Frio”, acho que é o outro tipo que pode ser feito: o filme em que você sai para fazer um filme, sem saber direito como ele é. Você fica aberto pro que acontecer durante o processo. É quase como fazer um documentário, só que em ficção. E eu estou fazendo um falso documentário.

Pílula Pop: Falso documentário?

Kleber Mendonça Filho: O filme é sobre uma mudança de temperatura no Recife. Ele deixa de ser uma cidade tropical e passa a ser uma cidade fria. Tudo é verdade, exceto que eu vou mostrar uma cidade que ficou fria, só que Recife continua quente. Vou mentir, falando sobre nossa identidade cultural tropical pernambucana e ao mentir vou falar a verdade.


Noite de sexta, manhã de sábado

Pílula Pop: Entre os seus curtas, o “Eletrodoméstica” e o “Vinil Verde” parecem ser filmes muito controlados, seguros. O “Noite de sexta” não.

Kleber Mendonça Filho: Eu discordo disso, e já ouvi várias vezes. Mas é tudo questão de ilusão de ótica. “Noite de sexta” tem câmera na mão, aparentemente está fora de controle, mas só na aparência. As pessoas dizem “esse é seu filme mais pessoal” porque ele trata de amor. Mas “Eletrodoméstica” foi feito no prédio onde eu moro, observo aquilo há muitos anos – é totalmente pessoal. O “Vinil” é em grande parte sobre a morte da minha mãe. Mas tem gente que acha que “Vinil Verde” é um exercício, “Eletrodoméstica” é um filme realista e “Noite de Sexta” é um filme pessoal. E a “Menina do Algodão” é uma brincadeira (risos).

O que talvez aconteça no “Manhã” é que algumas imagens foram feitas instintivamente, na filmagem. A filmagem em Kiev foi num esquema “essa rua tá linda, vamos fazer aqui”.

Pílula Pop: Você conheceu Bohdana Smyrnova, a protagonista do “Manhã de Sábado”, aqui no Festival de Curtas de Belo Horizonte, certo?

Kleber Mendonça Filho: Sim, ela trouxe um filme para competição, filmado também em Kiev, nas ruas e em preto e branco, como o “Manhã de sábado”. Acho que parte do meu p&b veio de lá. “Manhã” foi feito com Bohdana e co-escrito por ela, mas eu já tinha a história pronta. Inclusive filmei com ela outro curta que nunca vai ser lançado, uma história dela, chamado “Amsterdam”. É a história de uma menina que encontra uma amiga na livraria, elas conversam sobre o menino que era namorado da primeira. Ele está na cidade e não ligou, e isso deixa ela perturbada todo o resto do tempo.

Pílula Pop: Nunca vai ser lançado?

Kleber Mendonça Filho: A história é de Bohdana e ela acha que esse tempo passou, que não faz mais sentido lançar o filme. É um filme mais dela do que meu.

Pílula Pop: Sobre a sua trajetória como cinéfilo e depois como quem trabalha com cinema. Você não foi criado no Brasil, né?

Kleber Mendonça Filho: Fiquei na Inglaterra de treze a dezoito.

Pílula Pop: Mas a infância...

Kleber Mendonça Filho: Foi no Recife. A história é clássica: desde sempre eu tenho interesse por cinema. Minha mãe tinha bilhetes escritos com seis anos de idade: me leve pro cinema, tá passando tal filme. Na Inglaterra expandiu mais. A tv inglesa foi uma espécie de universidade, via muita coisa do mundo inteiro: cinema indiano, francês, australiano, italiano. Vi até Glauber na tv. Daí voltei pro Brasil, fiz jornalismo, e inventava desculpa pra fazer vídeo usando equipamento do curso. Mas o vídeo era muito maltratado em relação ao filme e eu enchi o saco. Nos festivais, ninguém via o vídeo ou ele tinha uma exibição quase escondida. Só no final dos anos 90 aconteceu a revolução digital – o vídeo passou a ser “digital” e ganhou uma nobreza instantânea.

Pílula Pop: E a palavra muda tudo, “digital” tira a pecha toda que tinha ‘vídeo’.

Kleber Mendonça Filho: É, e em 2001 eu peguei um dinheiro de herança, comprei um Mac e uma câmera digital, e entrei num curso de Final Cut, o software de montagem de digital. Lá, conheci Daniel Bandeira que fez comigo “Vinil Verde” e “A Menina do Algodão”. Como exercício para finalizar as aulas, fizemos “A Menina”. Ou seja, no fim do curso a gente tinha uma primeira versão do filme e eu suplantei meu pior medo: ter investido uma grana imensa e daí uns meses estar usando o computador pra checar email. E já recomecei minha carreira como diretor.

Pílula Pop: Agora você tá tocando só dois projetos: o seu documentário “Crítico” e “Recife Frio”?

Kleber Mendonça Filho: Sim, só os dois.

Pílula Pop: Nessa base de um filme por ano, esse seria o ano do “Crítico” e ano que vem o do “Recife Frio”.

Kleber Mendonça Filho: Isso.

Pílula Pop: Mas você vai conseguir montar o “Recife Frio” pro ano que vem?

Kleber Mendonça Filho: Sim. E tá vindo aí uma cobrança quase de relógio biológico do longa em ficção. O problema é que eu não consigo fechar a história na minha cabeça. Acho que precisa de mais um tempo ainda.

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