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Daniel Oliveira
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As 7 melhores de Grey’s

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“Talvez nós gostemos da dor. Por que eu insisto em me bater com um martelo? Porque é tão bom quando eu paro”. Ou “Nós viramos adultos. Quando isso aconteceu? E como a gente faz para parar?”.

São frases como essas que têm feito de “Grey’s anatomy” um dos seriados mais fofos, emocionantes e divertidos de se assistir. As dúvidas e falhas da doce, impulsiva e conflituosa Dra. Meredith Grey são aquelas que afligem qualquer um nos seus 20 e poucos anos, prestes a assumir responsabilidades que nunca teve.

A cada erro que ela e seus colegas cometem, você nunca fica impassível – ou ri muito, ou chora (seriously) – porque são os erros que não conseguimos não cometer. Ficar com a melhor amiga, transar com o chefe, dizer algo impulsivamente em um momento de ódio e se arrepender depois, sabotar um relacionamento pelo medo do compromisso. Essas e outras têm feito a imprensa norte-americana começar especulações do tipo “...seria o novo Friends?...”.

Especulações à parte, um dos grandes trunfos da série é sua trilha musical. Não é à toa que cada episódio tem o nome de uma música. De Break on through a Something to talk about, clássicos do pop já batizaram as desventuras médicas do seriado. As canções não são meros penduricalhos – pelo contrário, elas são uma importante camada que aceleram os momentos cômicos e amarram as cenas dramáticas, complementando as belas locuções de Grey. E só melhoram com o bom ouvido da supervisora musical Alexandra Patsavas, que aprimora (e muito!) a sua “experiência indie” em The O.C., permeando a série com pérolas e petardos sonoros.

Das baladas de Tegan & Sara às melodias pop grudentas do Jem; do pop safado do Fannypack às letras envolventes de Anna Nalick, muita coisa passou batido na lista abaixo. São as minhas sete músicas preferidas hoje – e eu provavelmente me arrependerei amanhã. Mas não se preocupe: se você quiser mais, Patsavas mantém um guia musical no site do seriado, em que você confere as músicas de cada episódio. Acredite: 99% delas são imperdíveis. E as sete seguintes, você já está comendo mosca por não ter baixado ainda...

Catch my disease

Ben Lee: “Então por favor, baby, por favor / Abra seu coração / E pegue minha doença!”

Grey: “Eu estou tão triste, mas tão triste, que eu tenho medo de chegar perto dos outros e minha tristeza ser contagiosa”.

Eu: No hospital Seattle Grace, os internos encaram plantões de mais de 40 horas, os residentes sofrem com mulheres que os ignoram e os supervisores são carrascos. Portanto, assim como a tristeza de Grey, a felicidade é também considerada uma doença. O mau humor ácido dos personagens é um dos pontos altos da série, rendendo diálogos mais que afiados. “Você tem transado com qualquer um, por que não com meu ex-namorado?” é só um deles.

É isso que faz com que a alegria de Ben Lee em Catch my disease seja ainda mais divertida. O pedido do cantor australiano para que todos compartilhem de sua felicidade é potencializado por um teclado ultra-pop, palminhas mega-pop e um coro de fundo superpop. É irritantemente feliz. Ele me lembra aquelas pessoas que nunca ficam tristes e aparecem nos meus dias de mau humor crônico. Eu tenho vontade de estrangulá-la até a morte. Tamanha diversão até poderia me deixar bem humorado.

O irônico é que a música é trilha do episódio “Deny, deny, deny”, sobre como vivemos sempre em negação para ignorar nossos conflitos internos.

A canção é do álbum Awake is the new sleep, que esse Ben Kweller da Austrália lançou em 2005.

Sexy mistake

The chalets: “Se você me beijar / eu não vou sentir na-da!”

Grey: “De todas as coisas que me cansam, odiar você é a mais exaustiva”

Eu: O que fazer quando a pessoa que você gosta é mentirosa, indecisa, irresistivelmente charmosa e...comprometida? Encher a cara, ir para uma boate e dançar Sexy mistake do The Chalets até derreter, e depois ficar com a primeira figura que aparecer na sua frente. Solução errada? Bem, é o que Meredith Grey faz normalmente – e, admita, é o que a maioria de nós faz. E se arrepende depois.

É impossível escutar esse petardo indie-rock e não ficar com os pezinhos mexendo com vontade de pular no inferninho mais próximo. Considere assim: Sexy mistake mistura a ironia bem-humorada e as guitarras dançantes do Franz Ferdinand com a vozinha fofa do Luscious Jackson.

Interessou? The chalets é um quinteto irlandês – duas mocinhas (Pee Pee e Caoimhe) e três rapazes (Chris, Enda e Dilbot). Eles têm ganhado excelentes críticas na terra do U2, já tocaram com o Franz e The Shins e emplacaram outro petardo em “Grey’s”: Nightrocker. A banda é extremamente rock, sexy e irresponsável. Assim como Meredith. Assim como uma noite em uma boate underground legal. Uhn, o que eu vou fazer hoje à noite mesmo...?

Monster hospital

Metric: “Eu enfrentei a guerra / Eu enfrentei a guerra / Eu enfrentei a guerra / Mas a guerra venceu”

Grey: “Eles estão em todos os lugares. Todo o tempo. Eles dividem comida e conversam e mexem nas coisas. E eles respiram. Ugh, eles são tipo...felizes”

Eu: Imagina o que nós poderíamos fazer em um daqueles dias barra-pesada, se não tivéssemos nenhum senso de responsabilidade, correição política ou traquejo social? Já pensou em sair chutando tudo, xingando e não estar nem aí? Mas a gente segue as regras, enfrenta os dragões e no final ainda se fode. É o que Monster hospital do quarteto nova-iorquino Metric inspira.

A música é perfeita para tocar logo depois de Sexy mistake, no inferninho acima. A cada riff do guitarrista James Shaw e a cada batida do baterista Joules Scott-Key, você pode exercitar seus melhores movimentos de headbanger.

O Seattle Grace realmente é um hospital-monstro, mas os cinco internos protagonistas perseguem suas piores facetas – ou as melhores cirurgias – como cachorros atrás do osso. E se, no final do dia, a guerra vence, a imaturidade deles desaba em lágrimas. E você morre de dó. Porque, afinal, quem nunca ignorou os próprios limites e fez muito mais do que devia para conseguir um emprego legal?

Chewing gum

Annie: “Oh não, oh não / você entendeu tudo errado / você acha que é chocolate / mas, na verdade, você foi goma de mascar”

Grey: “Eu vou subir e tomar um banho, ok? E quando eu descer de volta, você não vai estar aqui”

Eu: Meredith costumava dizer isso, pela manhã, para todo cara que ela pegava na balada. O problema foi quando ela disse isso, o moço foi embora e quando a doutora chegou ao trabalho, descobriu que ele era seu supervisor.

Bem feito. Chewing gum é tudo que Britney Spears sonha em fazer um dia. A pérola pop de um protótipo norueguês de Madonna, a loirinha Annie, é um hino das garotas moderninhas que usam caras feito latinha de cerveja, depois amassam e jogam fora. A gente não merece ser tratado assim.

Ok, talvez a gente mereça um pouco. E até goste.

Mas você não pode dizer para um cara, assim publicamente, que ele foi goma de mascar. Pode até pensar, mas não dizer. Nós também temos sentimentos. Isso ofende. Prova de que não se deve fazer isso é que Grey acabou se apaixonando pelo chefinho, o tal Dr. McDreamy. E, a partir daí, segundo ela mesma, “toda transa passou a se transformar em uma série de humilhações públicas”. A música foi trilha de “Something to talk about”, episódio em que ela passa o dia inteiro no hospital, sem saber onde enfiar a cara. Bem feito.

Blood and peanut butter

B.C. Camplight: “Eu nem mesmo sei seu nome / não podia ter te chamado de nada / deveria ter te chamado de baby / ou talvez algum outro agrado”

Dr. Burke: “Eu tenho uma pergunta para te fazer. Eu chequei os horários e nenhum de nós dois está de plantão hoje à noite. Eu fiz reservas no meu restaurante preferido.”

Dra. Cristina Yang: “Nenhuma dessas foi uma pergunta.”

Eu: Nem só das aventuras sexuais de Meredith vive “Grey’s Anatomy”. Os quatro colegas da moça são tão ou mais divertidos e atrapalhados que ela. A psicopata viciada em cirurgias Cristina Yang, por exemplo, é um achado. Não é à toa que ela deu a Sandra Oh o Globo de Ouro de atriz coadjuvante. E tenho que admitir que sua falta de organização e habilidade ao lidar com sua vida pessoal – em contraponto à sua extrema competência profissional – me são um tanto quanto familiares.

A belensebastiana Blood and peanut butter do grupo B.C. Camplight, da Filadélfia, é uma balada fofinha que narra bem o relacionamento de Cristina e seu supervisor, o Dr. Preston Burke. Sim, mais um. Os dois começaram uma relação com uma química sexual impressionante. Mas quando resolveram tentar deixa-la um pouco mais pessoal....

...Descobriram que não têm nada em comum. Totais opostos. As tentativas do vocalista Brian Christinzio em convencer sua parceira de banda, Cynthia A. Mason, de que o encontro dos dois não foi por acaso – e o fato de que ela responde fofa, mas friamente – ressoam a insistência de Burke em quebrar a resistência de Yang e construir um relacionamento sério. E Blood and peanut butter é tão divertida quanto assistir ao casal se desencontrar semanalmente.

Fools in love

Inara George: “Idiotas apaixonados, eles acham que são heróis / porque eles não sentem dor / eu digo que idiotas apaixonados são uns zeros / eu devia saber / eu devia saber porque essa idiota está apaixonada de novo”

Grey: “Quando eu estava no colégio, todas as garotas queriam ser Julieta na peça da escola. Eu não. Julieta era uma idiota que se apaixonou pelo único cara que não podia. Ela teve o que merecia”

Eu: Nem preciso falar muito da canção dessa moça da Santa Monica, filha do mitológico guitarrista Lowell George. Seu rosto parece com o da Adriana Calcanhoto, seu som folk cadenciado remete a Jon Brion, sua voz é doce e ácida, como Billie Holiday; e suas letras têm a maturidade de Aimee Mann.

Fools in love constata o que todos já sabemos, mas preferimos ignorar. Não escolhemos por quem nos apaixonamos. E quando caímos de quatro, ficamos patéticos, exagerados, bobos e tudo passa a ter um significado especial. “Até o rock’n’roll”, como Inara diz. Ela canta com uma tristeza sem tamanho, mas se admite uma idiota. Assim como Grey. E como nós. Não dá para não se apaixonar. Por Inara George e por essas coisas esdrúxulas que a gente encontra por aí.

Not going anywhere

Keren Ann: “É por isso que eu sempre digo / eu sou um rio com uma maldição / eu gosto de ouvir, mas não de escutar / gosto de dizer, mas não de contar”

Grey: “Pick ME. Choose ME. Love ME.”

Eu: O que dizer da canção dessa israelense, que tem o dom de destruir a alma com tanta tristeza na voz? Uma mistura de Beth Gibbons e Rufus Wainwright, com uma mãe anglo-javanesa e um pai sino-russo. Not going amywhere é uma música que te faz ficar parado pensando por uns dez minutos, pelo menos, e é também o nome do primeiro álbum de Keren Ann em inglês.

É uma canção bem simples. Ela fala de como, às vezes, nós fazemos algo, ficamos presos a isso e não conseguimos seguir em frente. Por mais que tentemos. Assim como a personagem de Naomi Watts, em “21 gramas”, lembra? É sobre se sentir estagnado, imóvel, parado no tempo. Não há nada pior, na minha opinião.

E Keren consegue mostrar isso em seus poucos mais de três minutos. Às vezes, parece que uma dor nunca vai passar e que nada vai melhorar. E, ainda assim, a vida continua porque coisas piores sempre podem acontecer. É a maldição de se estar vivo – sempre estar sujeito a maiores sofrimentos, ou maiores alegrias. Ver a gente aceitar o desafio diário e correr esse risco é a diversão de Deus.

Viu só que viagem? São essas coisas doidas que “Grey’s anatomy” faz você pensar. Alguém ainda quer afirmar que consumir cultura pop é simplesmente mascar chiclete?

Dra. Meredith Grey: sofrimentos, humilhações públicas e um iPod sensacional

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Daniel Oliveira é jornalista e fã de Grey's Anatomy.
daniel@pilulapop.com.br

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